Ao resgate

Alguns andam muito preocupados com a suposta quebra das economias do sul da Europa. Outros não. À fim, alguém tem de pagar a crise do sistema bancário internacional. E não falo apenas da crise provocada polo estourido  da borbulha do crédito. Falo também da outra crise. Se calhar da verdadeira crise. Porque, talvez, a primeira crise não é mais do que o disfarce da segunda. Falo da “crise” política na América do Sul.

Sim, porque na feliz segunda metade do século XX, o quintal (ou backyard como dizem eles) dos EUA estava bem atado e sob controle. Com ditaduras amigas que garantiam o bom curso da nossa agenda colonial e a paz social em muito países. Noutros, até permitíamos a farsa sufragista, seguros de que ganhariam sempre os nossos (o que Galbraith chamou a burguesia cliente) .

Um dos mecanismos de controlo mais lucrativos, eram os empréstimos  concedidos a todos os países do subcontinente sul-americano (assim como aos da América Central, África, e diversos estados asiáticos). Centralizados através do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM), estes empréstimos, para além dum importante mecanismo de controlo político,  supunham (e ainda supõem) uma fonte imensa de benefícios para a banca privada internacional. Imagine, centos ou até milhares de milhões de pessoas polo mundo todo a trabalhar para si.

Com efeito, nalguns países do cone sul americano, o importe dos interesses anuais a pagar ultrapassava os 80 % do seu Produto Interior Bruto (PIB).  Como os ingressos do Estado provêm fundamentalmente dos impostos pagados polos seus cidadãos (e empresas, mas os lucros empresariais também se derivam do trabalho dos cidadãos, polo que tudo vem dar no mesmo), o balanço resultante é que os cidadãos destes países estavam (muitos ainda estão) a pagar com o seu trabalho os lucros da banca privada internacional. Por outras palavras, que a banca internacional contava (e ainda conta) com milhares de milhões de escravos no mundo inteiro que trabalhavam (e trabalham) para pagar os interesses duma dívida que eles nunca quiseram contrair.

O mais engraçado do tema é que os organismos e os media internacionais apresentavam estes empréstimos como se dum ato de caridade se tratasse. “Estamos a ajudar os países em vias de desenvolvimento”, diziam. Por vezes, até “perdoavam” uma parte da dívida a países que atravessavam graves problemas como catástrofes naturais e outros. É claro que esses países já pagaram com acréscimo a sua dívida, mas ainda ficavam interesses por pagar ad aeternum

Até ai tudo era felicidade. O problema chega na década dos 2000. Os EUA andavam muito atarefados a invadir países no Oriente Meio,  e não reagiram a tempo perante algumas das mudanças que se estavam a produzir no seu quintal do sul. Foi assim como começaram a chegar aos governos curiosos personagens como os Chávez, Lula, Morales, Kirchner, e demais.  Entre expropriação e expropriação de transnacionais estrangeiras, estes governantes ainda tiveram tempo de saldar a dívida dos seus países com o FMI e o BM (ou simplesmente negaram-se a continuar pagando os interesses). Foi assim como a banca privada internacional perdeu (parcialmente) vários centos de milhões de escravos, com as quantiosas perdas económicas consequentes.

Mas se queremos evitar o colapso do sistema bancário internacional, obviamente, alguém tem de compensar por essas perdas. Foi assim como se acordou que seria a Europa do sul (e seguramente depois também do Leste) quem pagaria a fatura. Assim, os portugueses, gregos, espanhóis e, quase com total certidão, também os italianos, substituiriam aos brasileiros, venezuelanos, bolivianos e argentinos como escravos do sistema financeiro internacional. E não apenas solicitando créditos particulares para comprar objetos que não precisam como símbolos de status, que é o que vinham fazendo até agora. Não. Doravante também sendo mungidos polos seus respetivos estados através duma carga fiscal crescente para pagar uma dívida que eles não contraíram.

Perante as previsíveis tensões sociais, decidiu-se começar a pequenas escala. Com Irlanda, Portugal e Grécia, como pequenos laboratórios para a  “latinamericação” do sul e leste da Europa. Foi assim como se criou o mito da falência destes estados (devido sem dúvida à sua, geneticamente determinada, preguiça patológica). Foi assim como os seus cidadãos viraram escravos da banca privada internacional. Agora é a quenda dos espanhóis. Depois virão os italianos (já se está preparando o regresso de Berlusconi, o palhaço que  melhor pode pôr em cena a ópera buffa da “quebra” da Itália). Finalmente será o turno dos do leste.

Com essa bomba de oxigénio recebida pola grande banca é com o que se está a financiar o milagre da “recuperação” alemã. É o que noutrora se chamou de “colonialismo interno”, agora a escala europeia.