O Apalpador e outros contos

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O Apalpador ou Pandigueiro é uma figura mitológica pouco conhecida até há poucos anos fora das montanhas orientais da Galiza. Nessas montanhas, nomeadamente no Courel, mas semelha que também nos Ancares, os mais idosos, e não só, lembram ainda as histórias que os seus pais e avós contavam sobre um velho carvoeiro de considerável porte que baixava das montanhas no Natal com um saco cheio de castanhas. Segundo a tradição, o Apalpador apalpava, dai o seu nome, o ventre das crianças para ver se estavam bem mantidas e, em caso contrário ou em qualquer caso, segundo as versões, deixava uma presinha de castanhas para os miúdos.

Assistimos, nos últimos anos a uma série de campanhas, com origem normalmente nos distintos centros sociais da Galiza, para recuperar e espalhar esta figura tradicional do Natal galego, substituindo assim outros seres mitológicos análogos, percebidos como forasteiros, como o Santa Claus ou Papá Noel.

Claro que o caminho de volta do Apalpador aos lares galegos nem sempre é fácil, pois a figura conta também com os seus detratores.

O primeiro que disseram é que o Apalpador é um invento diferencialista do nacionalismo galego. Porém, o recente trabalho etnográfico da Gentalha do Pichel, demonstra tratar-se duma figura tradicional ainda viva na memória das comarcas ocidentais:

Na mesma linha, também afirmaram que o Apalpador não é mais do que a mimética adaptação galega do Olentzero basco (o qual também seria, por sua vez, um invento folclórico nacionalista).  Na verdade, provavelmente tanto o Apalpador, quanto o Olentzero, quanto o Weihnachtsmann, quanto o Dedo Mráz, etc., partilhem uma origem comum na tradição europeia pré-cristã. Por outras palavras, são distintos nomes para um único deus ou ser mitológico pagã associado com o inverno e, nomeadamente, com as tradições milenárias do solstício. Como acontece tipicamente com os deuses pagãos (no mundo germânico, parece que seria Odin), a cristianização da Europa seguiu duas estrátegias: 1.- A supressão pola via da demonização (assim o Apalpador viraria provavelmente o Homem do Saco, muito útil em toda a Europa quando se trata de assustar crianças); ou 2.- A assimilação pola via da santificação (assim o Apalpador virou São Nicolau ou Santa Claus, dependendo dos países).

Esta tese contradiz o segundo dos problemas que o nacionalismo espanhol tem com o Apalpador. Segundo eles, a figura do Apalpador seria um fetiche localista, face ao universalismo de, por exemplo, uns bons Reis Magos. Porém, esses Reis Magos, embora omnipresentes na tradição cristã (e outras anteriores, pois esses Três Reis não são se não as três estrelas mais brilhantes do cinto de Orion), como trazedores de presentes natalícios são quase exclusivos da Espanha e algumas ex-colónias. Porém, o nosso Apalpador, como vimos de ver é, sob distintos nomes, um trazedor de presentes muito mais universal que pertence à cultura ancestral pan-europeia, e graças à Coca-Cola, já também à cultura popular do mundo inteiro.  O problema é que para alguns apenas Madrid é universal, enquanto o resto do mundo é “pailanismo localista”.

O terceiro dos problemas que os nacionalistas espanhóis semelham ter com o Apalpador, concerne o seu método de auscultação. Segundo eles, apalpar a barriga das crianças para comprovar se comeram bem, é um sintoma claro de pederastia. Como é claro que a perversão, como a beleza, está no olho do que observa, eu pessoalmente teria muito cuidado com os que chamam de pedófilo ao bom do Apalpador, não vaia ser o demo…

Alguns afirmam, aliás, que se um velho farrapento entrasse na sua casa para trazer castanhas, iriam buscar a espingarda. Imagino que essas mesmas pessoas também deixariam, vassoira em mão, teso dum golpe o sujo rato conhecido na Espanha como “Ratoncito Pérez”, para imediatamente chamar uma empresa de desratificação e comprar um gato. E nem quero pensar o que fariam esses indivíduos se vissem entrar pola porta três “moros en camello” fedendo a incenso, pois isso é o que são os Reis Magos na mitologia cristã. Temo que ficariam as tendas de armas sem perdigões.  Tenho certeza de que a lenda segundo a qual a mãe de Deus foi inseminada por uma língua de lume, semelhará-lhes um conto lisérgico de ressonâncias satânicas e que acharam bárbaro e não apto para menores o canibal ritual dominical de comer a carne de Cristo e beber o seu sangue.