Eleições da Galiza 2012: Uma análise apressurada

Abstenção

A primeira força política da Galiza é a abstenção. Ainda mais se a ela somamos os votos nulos e brancos e as opções políticas assimiláveis com o voto em branco. Qualquer hipótese de derrotar eleitoralmente o PP passa por mobilizar uma porção significativa do abstencionismo cara forças políticas com possibilidades de obter deputados. Porém, em mais de três décadas de regime sufragista (mal chamado democracia), nas eleições autonómicas isto apenas aconteceu duas vezes.
Confluem três fatores:

1.- O ceticismo da população galega. Muita dela ciente de que esta democracia é apenas uma miragem.

2.- A escassa credibilidade da oposição.

3.- A habilidade do PP para desmobilizar a porção da população mais proclive ao abstencionismo (alimentando esse ceticismo do que falamos no ponto primeiro).

Partido Popular

Com 140.000 votos menos que em 2009 e o pior resultado em número de votos desde 1985, o PP obtêm uma das maiorias absolutas mais cómodas da sua história nas eleições à CAG. 41 deputados, 3 mais do que em 2009.
Estes dados falam eloquentemente do sistema eleitoral e da democracia que temos. Além do mais, agora o PP tem o cheque em branco que precisava para reduzir o número de deputados da câmara galega de 75 para 61, o que na prática vai supor o enquistamento deste partido no poder, quando já neste momento resulta difícil diferenciar o partido das instituições.
Para além da carretagem, o clientelismo, o voto cativo e outros lugares comuns que a oposição vem usando, qual ladainhas, para justificar as suas derrotas, a verdade é que o PP tem uma impressionante e sólida base eleitoral na Galiza. Claro que o controlo absoluto dos media (tanto públicos quanto privados) também ajuda para fazer com que a propaganda do PP seja a base de qualquer marco interpretativo empregue pola população galega.
Com essa base eleitoral cumpre contar sempre.
A desfeita continua. E por cima a impressa internacional vai interpretar esta vitória como a anuência dos “espanhóis” para com as políticas impostas sobre Rajoy por parte da banca internacional (e o seu intermediário a União Europeia). O bom disto é que nas semanas vindouras a Espanha deixará de existir como estado soberano para se converter oficialmente num protetorado da banca. O mau é que os espanhóis vão pagar com o suor da sua frente a infinda cobiça dos amos do mundo.  Eu, que tenho amigos e família na Galiza, não podo evitar antecipar o seus sofrimentos…

Partido Socialista

Com 230.000 votos menos que em 2009, este foi o partido mais duramente castigado polos eleitores. Mas o raro não é isso. O que admira é que este partido OVNI ainda exista na Galiza. Este facto demonstra, melhor do que nenhum outro, até que ponto a Galiza é uma colónia povoada por zumbis: Qualquer produto que nos enviem de Madrid, por absurdo que for, tem mercado.

Alternativa Galega de Esquerda

Foi a grande surpresa da jornada, convertendo-se na terceira força parlamentar. Somando os votos de AGE e mais o Bloco, temos por volta dos 350.000, um dos melhores resultados da social-democracia (real, não da do PSOE) na Galiza. O positivo foi que o Beiras foi quem de mobilizar muito votante apático. O mau é que semelha este um gigante com os pés de barro, já que o seu principal e único ativo logo há entrar na casa dos 80 anos. Quando o Beiras se retire, o mais provável é que o projeto se desinche eleitoralmente como uma bola fofa. A única maneira de evitá-lo seria que uma porção significativa desses 200.000 votantes se implicassem no ativismo social, criando uma massa crítica ativa. O problema é que como a UPG, o PCE (que controla Izquierda Unida) boicoteia tudo o que não controla e que não semelha ter vontade nem capacidade de realizar qualquer projeto de autogestão (o único que pode mobilizar a massa crítica de forma permanente). Pola experiência noutros territórios do Estado, a principal aspiração de IU enquanto plataforma eleitoral é colocar os seus peões nas instituições.

Honestamente, espero estar enganado.

Bloco Nacionalista Galego

O BNG levou a hóstia da sua vida (e a última duma longa concatenação de hóstias). Bem merecida. Eu votei por eles e não me arrependo. Mas como não apreendam desta acho que o partido está condenado a se converter numa força residual. Primeiro é um partido que sempre tentou instrumentalizar todos os movimentos sociais e que boicoteia ativamente tudo aquilo que não controla. Segundo, que desde que chegaram às instituições perderam qualquer contacto que pudessem ter com a sociedade. Terceiro, a vontade de se institucionalizar a qualquer preço (virando um papaventos a mercê de cálculos meramente  eleitoralistas) . Quarto, os casos de corrupção (insignificantes a respeito do PP, mas o eleitorado potencial do Bloco não entra por esse aro como o do PP). Quinto, carência absoluta dum projeto de país, cobardia política e falta de criatividade. Sexto, cúpula inçada de pessoas medíocres. Sétimo, carência de humildade. Poderíamos continuar, mas, bom por aquilo do que quem estiver livre de pecado e tal e qual, imo-lo deixar aqui. Soluções? Eu que sei. Primeiro, processo de refundação aberto à sociedade e baseado no talento e na meritocracia. Segundo, provem a apoiar os movimentos sociais sem afã de controlo e de protagonismo, sem faixas e sem bandeiras. Hmm, no, that’s  not happening. Esqueçam-no.

UPyD

Esperpento.

Eb

Idiotice.

SDC

Mario Conde.

Compromisso por Galiza

Resultado previsto. Não desesperem. O seu dia chegará. O primeiro objetivo deveria ser tentar apagar o PSOE do mapa da Galiza. Não é brincadeira. O PP está muito duro. A abstenção não sei se lhes fará muito caso. O PSOE na Galiza é um morto vivente. Lume!

PACMA

Animalinhos.

DO

WTF.

Partido da Terra

Quantitativamente, os resultados são meritórios. Triplica os votos de Nós-UP e iguala os da FPG. Para ser um partido novo (primeiras eleições de verdade), com ideias bizarras, sem recursos, e a escrever em português, 3.000 e pico votos não está nada mal.  Três mil votos significa que a mensagem chegou a muita mais gente e que provavelmente muito desse pessoal poderia votar no PT num futuro.
Claro que, quantitativamente, estes resultados não passam duma anedota. Porém, na minha humilde opinião, o PT não deveria preocupar-se tanto pola quantidade quanto pela qualidade. Três mil votos não são nada, mas três mil ativistas envolvidos em projetos de autogestão democrática seriam um muito bom começo: cooperativas de ensino, banca ética, cooperativas de agricultura ecológica, cooperativas de consumo responsável, locais sociais que dinamizem a vida dos bairros e aldeias,… são apenas alguns exemplos de iniciativas que poderiam servir de pontos de encontro da cidadania e de maneiras de artelhar a sociedade desde a base criando uma cultura participativa e democrática.