Votarei BNG

Acho que levo mais de 10 anos sem votar. Na verdade nem lembro bem. Lembro apenas que a última vez que tinha intenção de votar foi em 2003. Daquela não pudera por que a minha moça estava doente e tive de ficar em Compostela para cuidar dela. Depois deixei a Galiza. Registei-me em embaixadas espanholas três vezes. As duas primeiras vezes  não me chegou a documentação para votar. Porém, na verdade, não sei se o teria feito. Desta volta roguei o voto e venho de receber a documentação.

Pré-selecionei quatro listas como não-lixo: Partido da Terra (PT), Bloco Nacionalista Galego (BNG), Compromisso por Galiza (CxG) e Alternativa Galega de Esquerdas (AGE). O resto já estão no caixote do papel para reciclar.

Partido da Terra

Prós

– O PT é o único partido com propostas verdadeiramente transformadoras, tanto no sentido democrático quanto no ético,  no económico e no social.

– Conta nas listas com pessoas da qualidade dos Ernesto Vázquez Souza ou dos Joam Evans Pin, por nomear apenas dous. Apenas por isso já dava ganas de votar por essa lista.
Contras

– Não tem qualquer hipótese de chegar ao mínimo do 5%, pelo que, infelizmente,  votar PT significaria votar PP.

– As posturas explicitamente anticientíficas dalguns dos seus membros mais destacados fazem muito difícil neste momento um achegamento a este partido.

– Apresentarem-se às eleições autonómicas, sem ter começado a trabalhar no seu modelo social nem em uma paróquia só, é começar a casa pelo telhado.

Compromisso por Galiza

Prós

– É o partido com o potencial mais grande para conectar com a sociedade galega de hoje (quando  se consolidar).

Contras

– Ideias pouco inovadoras e pouco ambiciosas (até dentro do seu espectro ideológico).

– Projeto pouco consolidado com aspirações eleitorais incertas para o 21-O.

Alternativa Galega de Esquerdas

Prós

– Beiras (A Crunha).

– É o partido que mais potencial tem para colheitar o voto da “indignação”. Por outras palavras, votantes que normalmente ficariam na casa ou que votariam por opções políticas sem hipóteses de alcançar representação.

Contras

– É altamente provável que o projeto morra quando Beiras se retire da política, já que é duvidoso que os setores galeguistas se submetam durante muito tempo ao férreo controlo e manipulação do PCE (vejam-se por exemplo as mentiras eleitorais e as ânsias de protagonismo de Cayo Lara estes dias em Vigo).

– Izquierda Unida é um partido que aspira a representar o voto útil da esquerda e a institucionalizar-se. Portanto, tão aginha como toque poder e comece a criar chiriguitos e a colocar os seus peões, perderá o halo “revolucionário” e a capacidade para canalizar o voto “indignado”. Para isso já temos o BNG.

– Izquierda Unida é uma sucursal dum partido espanhol e portanto carece de soberania para defender os interesses da Galiza quando exista um conflito com outros lugares do Estado.

– É improvável que obtenham representação por Ourense e Lugo. Até em Ponte-Vedra não está claro neste momento.

Bloco Nacionalista Galego

Prós

– É o projeto político mais maduro e consolidado da esquerda galega e o único que tem garantida a representação nas quatro províncias.

– É, com diferença, o partido que está a ser mais duramente atacado e caluniado polos media do sistema. Por algo será. Por algo será também que quando a polícia elege um representante sindical para malhar nele e “escarmentá-lo”, escolhem um da CIG.

– Discurso mais nitidamente de esquerdas e soberanista a respeito do passado recente. Isto é simples marketing eleitoral, mas o mero feito de reclamar a soberania fiscal para Galiza (ainda que logo fique em água de castanhas), já supõe um salto qualitativo a respeito do que nos tinham acostumados ultimamente.

– É um projeto genuinamente galego (sim, também em sentido pejorativo).

Contras

– Como dizia-mos antes a respeito de IU, o BNG é um partido que aspira ser o voto útil da esquerda (e, neste caso, do nacionalismo) para assim institucionalizar-se, criar os seus chiringuitos  e colocar os seus peões (amiúde, políticos profissionais sem ofício nem benefício). Mas bom, infelizmente, isto aplica-se a todos os partidos agás, esperemos, ao PT. Gostemos ou não, nesse sentido somos muito espanhóis e, já que logo, corruptos.

– Relacionado com o ponto anterior, até agora o BNG (igual que IU), limitou-se a gerir as instituições de maneira convencional e pouco criativa e sem desafiar os limites marcados polo sistema.

– A UPG/BNG tem um potencial de penetração social limitado pois, como PCE/IU, concebe o partido como o centro neurálgico da sociedade do que qualquer outro movimento social deve ser tentacular. Uma sociedade democrática, por razões óbvias, não tolera esse tipo de paternalismo partidista.

CONTEXTO POLÍTICO

Analisados de forma quase esquemática os prós e os contras das distintas opções, daremos a seguir algumas das chaves que justificam a nossa escolha (BNG).

Poderíamos falar de inúmeros fatores: a língua, o desemprego, a economia, a dívida pública, a tirania dos mercados, a corrupção política, o desmantelamento dos serviços públicos e, nomeadamente, a sanidade e a educação, etc. que aconselham afastar Feijóo da Junta o antes possível. Em todas essas frontes, qualquer das quatro opções hoje apresentadas faria sem dúvida uma gestão melhor que a do nefasto PP de Feijóo, o qual limitou-se a destruir o feito polo bipartido PSOE/BNG (que não era muito) e a fazer hipocritamente propaganda de austeridade enquanto na verdade o seu governo, como sempre faz o seu partido, a esbanjava e desviava fundos públicos para empresas e chiringuitos afins.

SOBERANIA/DEPENDÊNCIA
Porém, assim como em determinadas questões como a educação e a sanidade a cor política do governo da Junta pode fazer muita diferença, no resto (como economia e emprego), as competências da Junta da Galiza são claramente insuficientes para tentar mudar de maneira significativa a péssima situação. Isto não quer dizer que não seja possível fazer nada, mas tudo o que se fizer no contexto atual será insuficiente polas limitações estruturais intrínsecas da autonomia galega. Neste sentido, o BNG foi o único partido que tem proposto de forma valente uma medida concreta para avançar no autogoverno galego: a soberania fiscal. Não é tudo, mas já é algo. Com soberania fiscal, já poderíamos estimular de maneira mais efetiva a iniciativa empresarial (nomeadamente no referido à ciência e a inovação) e atrair investimentos, fomentando destarte a criação de emprego.
Neste sentido as propostas de AGE ficam num vago “avançarmos cara a autodeterminação” (o antigo discurso do BNG). Sim, mas como? Par além de que é sabido de que o jacobino Cayo Lara em Madrid é oposto a qualquer tipo de assimetria fiscal dentro do estado, como por exemplo o concerto económico basco ou o pacto fiscal catalão. CxG por enquanto não ousa assustar o eleitorado com este tipo de questões e o anti-estatalista PT está a anos luz deste tipo de debates.

ESQUERDA/DIREITA
Assim como no eixo Galiza-Espanha, o BNG distanciou-se do seu competidor mais direto, a AGE, com a proposta da autonomia fiscal, no eixo esquerda/direita não se observam grandes diferenças para além da estratégia de campanha: Com o BNG dando uma imagem mais institucional para reforçar a ideia do “voto útil” e a AGE na rua com um discurso mais rebelde para pescar o voto indignado.  Porém, chegados à ação de governo não acho que vaia a haver grandes diferenças entre uns e outros. Até CxG tem um programa social-democrata à esquerda do PSOE e que no possibilismo prático não vai diferir muito do do BNG ou a AGE. O resto é estética.

DEMOCRACIA

Esta é a razão principal que me leva a votar nestas eleições assim como a escolher uma opção “possibilista” e, dentro destas, o BNG.

O detonante foi a instrumentalização descarada que a direita espanhola está a fazer do poder judicial com fines políticos. Não é que acreditasse nunca que o atual regime é uma democracia. Não. Porém, quando se viola de forma tão flagrante como está a fazer o PP o princípio fundamental da separação de poderes, fica claro que cumpre parar-lhes os pés como for. Cumpre combater da maneira que seja a acumulação de poder.

O PP já controla o poder executivo e legislativo a nível do Estado, pois controla Congresso dos Deputados e o Senado (embora o sistema bicameral espanhol seja meramente formal, porque o Senado é essencialmente inoperante polo que é o governo o que detenta os poderes legislativo e executivo). A isso temos que somar que o PP e o PSOE estão ao serviço do capital e da banca, polo que , aos poderes executivo e legislativo, cumpre somar o verdadeiro poder num regime capitalista, o poder económico. Visto os médios de comunicação,  o quarto poder, serem um apêndice do capital (pois são empresas em mãos de diversas sociedades de investidores, incluindo a banca), temos que na Espanha todo o poder está nas mesmas mãos.

Se o dito for insuficiente, vemos como a Junta do PP unta com todo descaro com cargo ao erário público os médios privados justo antes do começo da campanha. A seguir lança os seus juízes afins contra os partidos da oposição (com razão ou sem ela, que isso já quase tanto tem). Como a guinda do bolo, o PP ainda se permite golpear e torturar com toda impunidade qualquer pessoa que proteste na rua ou que simplesmente passasse por ai. Incluindo lideres sindicais como no caso do delegado comarcal da CIG em Trasancos.
Um tal poder omnímodo e imoderado é absolutamente incompatível com qualquer conceção que tivermos da democracia (por convencional que esta for). E a situação não cessa de se degradar dia após dia…

Por isso, o meu voto polo BNG não significa que espere grandes cousas deste partido, significa um voto contra a acumulação de poder para tentar que quando menos a Junta não fique nas mesmas mãos de quem controla tudo o resto. Para evitar que o monstro continue a empregar todas as instituições para continuar a medrar e para blindar-se contra qualquer eventualidade.
Escolho BNG por duas razões:

1.- Uma, que dentro do “possibilismo” é a opção mais anti-poder tanto no eixo esquerda-direita (permita-se-me continuar a empregar este convencionalismo no que cada dia acredito menos) quanto no eixo Galiza-Espanha.

2.- Duas, que, dentro desse mesmo odioso possibilismo,  semelha claro que é a força mais incómoda para o sistema neste momento, vistos os esforços empregues em desacreditá-la e destrui-la.

Assim, que mais uma vez e mais duma década depois, com a cabeça fria e a pinça no nariz, irei votar Bloco.

Dito isto, os meus melhores desejos para as outras três candidaturas consideradas, particularmente para o PT, que é o que votaria se votasse em consciência (aguardo que algum dia o farei). Todas quatro são importantes e necessárias, pois uma sociedade verdadeiramente democrática terá de ser necessariamente plural e todas as sensibilidades deveriam estar representadas em qualquer parlamento digno de tal nome. De facto, quem siga este blogue sabe que desde ele instigou-se a fragmentação do galeguismo com a fim de achegá-lo à sociedade e sabe também que na opinião do Koroshiya Itchy os partidos existem para sequestrar a democracia. Porém, os tempos são os que são e cumpre expulsar o cancro do PPsoE das instituições (bom, na verdade apenas o PP, pois malfadadamente por enquanto não podemos expulsar os dous tentáculos do poder ao mesmo tempo, polo que temos de escolher o mal menor). Não é a solução do problema, mas é o que podemos ir fazendo enquanto não artelhemos, desde a base, uma sociedade mais justa e racional.

 

NOTA: Devido ao spam proveniente alegadamente do Partido da Terra, os comentários neste artigo foram desativados. Este não é um blogue de propaganda para partidos políticos. Vaiam fazer demagogia a outra parte.