Do galenhol

Todos os galegos falamos (os que o falamos) e escrevemos (os que o escrevemos) galenhol. Alguns fazem desse galenhol o cerne da nossa “identidade coletiva”. Dizia Angel Fole, acho, que a “fala é o que se fala”. E levava razão. Eu acrescentaria que língua é precisamente o que não se fala. A língua, entendida como standard culto, não é o que se escuta na rua. Nem em Compostela, nem em Madrid, nem em Paris, nem em Roma, nem em Lisboa, nem em Washington… É um constructo artificial que é apenas empregue em contextos muito determinados (mas que cumpre outras funções como a de cimentar as falas num tudo mais ou menos coerente). Na hora de elaborar um tal constructo artificial, eu não perderia demasiado tempo a discutir que constructo é mais próximo da fala, porque a fala não existe. A fala é sempre plural, são “as falas”. Um constructo, portanto, que nos achegue da variante A vai-nos afastar da variante B, e vice-versa.

Nós, os galegos, temos duas opções, dous marcos de referência, para elaborarmos esse construto: 1) Um marco quadri-provincial espanhol; 2) Um marco internacional. Eu já fiz a minha escolha. Na rua falo galenhol, que é o que se fala, porém, não é o mesmo, dito isto com toda humildade, o meu galenhol do que o galenhol duma pessoa que vive as 24 horas do dia submergida no espanhol (ou no espanhol/galenhol). Porque eu uma parte desse tempo estou submergido no galego-português em todas as suas variantes. A diferença, sendo pouca, é muita.

Na Espanha, por estarmos ainda mergulhados em pleno processo de assimilação cultural das culturas “periféricas” e por inercias herdadas da “escuela de Doña Marujita” franquista, o standard académico tem um caráter prescritivo muito forte. Partimos da base de que há uma única maneira legítima de falar que é essa. Não entendemos que existem diferentes registos e que, em cada contexto, as formas legítimas de falar podem ser distintas. No caso da língua castelhana, ninguém questiona esta imposição do constructo “culto” sobre as falas. O espanhol é apenas esse constructo e o resto é “falar mal”. E esse constructo “standard” do espanhol peninsular está a servir de referência tanto para o castelhano quanto para o galego.

Porém, quando nos anos 80 começa a difundir-se um determinado standard culto do galego, o “povo” reage contra ele. É o fenómeno “a minha abuela nunca dixo isso”. Reage contra ele porque entende que esse galego exótico pretende ter esse mesmo caráter prescritivo e impositivo que tem o standard castelhano. Mas, claro, o galego é muito de “a mim ninguém me vai vir à minha casa a me dizer como tenho que falar”. Assim, o “povo” nega ao galego o direito a ter standard culto. O galego só pode ser a fala (mas, lembremos, a fala é na verdade “as falas”). Para o resto já temos o castelhano.

Isto não seria a fim do mundo se as falas fossem entes mais ou menos estáticos (embora eu particularmente não veja o interesses de congelar arbitrariamente as falas galegas no estado no que estavam em 1980, por muito estatísticos que sejam os critérios de congelação). Mas não são. As falas galegas estão a convergir mais rapidamente do que nunca com o castelhano. É um fenómeno de degradação constante que não se vai deter até a convergência quase total. A única maneira que eu vejo de conter este declínio chama-se português.

Outros propõem a receita da imersão linguística no Courel. “Ide falar com os velhos”, dizem. Não tenho problema e até acho boa ideia. Mas este método tem três limitações: 1) Não sei se essas falas do Courel terão um vocabulário suficiente para escrever uma tese de doutoramento na área da nefrologia, por exemplo; 2) Levamos com esse discurso desde os anos 70 do século XX sem nos dar conta de que esses míticos velhos já morreram e que se imos agora falaremos com os seus filhos e netos, caso não tenham marchado já para a cidade; e 3) Por que o Courel e não Camarinhas, por exemplo? E por que não meter Castro Laboreiro nessa guia de destinos linguísticos “enxebres”?