Da necessária reconfiguração / revertebração do galeguismo

A HEGEMONIA DA UPG

Está a se desenvolver a assembleia do Bloco Nacionalista Galego (BNG) e, embora ainda não se conhecem os resultados, tudo aponta a que, segundo o previsto, vamos assistir ao trunfo maioritário das teses da União do Povo Galego (UPG), a qual concorre à assembleia sob o nome de Alternativa pola Unidade (APU).

Antes de mais, quero cumprimentar a UPG pola sua vitória, que acho muito significativa. Esta força marxista-leninista nascida ainda na clandestinidade a começos da década do 1960, tem sabido manter-se como força hegemónica dentro do galeguismo politicamente organizado durante tudo o período “democrático”, primeiro no seio da AN-PG e posteriormente no BNG.  Apesar da sua pequena representatividade eleitoral a nível da Galiza (dificilmente quantificável por se apresentar dentro duma coligação, mas claramente inferior ao 10 % do eleitorado), cumpre reconhecer que é um dos partidos comunistas da Europa ocidental que melhor tem aguentado o tipo nas últimas décadas. Com uma base social trabalhadora e disciplinada, não apenas foi capaz de manter a hegemonia política dentro do galeguismo, como também em diversos movimentos sociais tentaculares como o ecologismo, a principal associação de defesa da língua e parte do sindicalismo operário, estudantil e agrário. Hegemonia que foi acompanhada, e isto é, na nossa opinião, o verdadeiramente meritório, também por um alargamento, débil mais significativo (significativo por ir contra-corrente da tendência em toda a Europa), da sua base social militante.

Alargamento que fica demonstrado polos previsíveis resultados desta assembleia, onde está claro que a maioria da militância do BNG, quando menos daquela militância o suficientemente comprometida como para assistir às assembleias,  concebe o Bloco como uma força  com consciência de classe. Fica também claro que a maior parte dessa militância confia na UPG e comparte a sua estratégia , segundo a qual um partido único deve servir de  guia único à classe trabalhadora no seu esgrêvio périplo cara a sociedade comunista.

É também claro que o “aperturismo” e o “inter-classismo” quintanistas foram, no que respeita à UPG, simples experimentos de marketing político destinados a alcançar um alargamento da base eleitoral que consolidasse o Bloco nas suas posições institucionais. Apesar do fracasso desta estratégia, apesar das sucessivas desilusões com o medíocre desempenho institucional e apesar dos casos de corrupção, a fidelidade da base social militante do BNG com o projeto da UPG resulta muito sintomática de uma sintonia ideológica importante. Eis o grande sucesso da UPG.

Obviamente a supracitada fidelidade não é o único parâmetro que explica o trunfo da APU, mas, se observamos que esta fidelidade é a constante das últimas décadas, sim que semelha o mais importante. Os outros parâmetros seriam a divisão da oposição entre o MGS e a coligação EI/+G (improvável coligação anti-UPG entre o discurso altermundialista do Beiras a social-democracia centrista do Aymerich); assim como a constante  campanha anti-BNG realizada polo próprio Beiras e outros descontentes nos media ao longo dos últimos anos.

Seja como for, o que é claro é que o BNG é da UPG.  Eu pessoalmente coincido com a diagnose do Beiras  e do quintanismo de que um Bloco controlado por uma força marxista-leninista tem um potencial muito limitado, tanto a nível eleitoral quanto a nível de penetração social, polo que não é conveniente que essa força monopolize tudo o galeguismo político como o vem fazendo ao longo das últimas décadas.

O ABANO POLÍTICO GALEGUISTA

Nos últimos anos esta a ficar patente de que as distintas sensibilidades galeguistas cobrem já, em maior ou menor medida, todo o abano político da sociedade galega. Desde a extrema direita até a extrema esquerda, passando pola conservadora democracia-cristã, o liberalismo, a social-democracia, a esquerda comunista, a esquerda altermundista e chegando até o anarquismo.  Porém, essa diversidade ideológico-estratégica não se manifesta adequadamente no espectro político organizado.

Uma das razões, se calhar a principal, para o monolitismo do panorama político galeguista deveu-se a que o ascenso político fulgurante do BNG na década dos 1990 criou a ilusão de que uma única fronte  galeguista tinha possibilidades reais de aspirar à hegemonia na Galiza. Para além do fato de que, toda vez que toca poder, a tendência de qualquer força política é virar dependente da representação institucional (vai frio fora). Eis uma das armadilhas do sistema.

Assim, a pingueira constante de pessoas desiludidas com o BNG foi esvaziando, ao longo dos anos, o Bloco duma parte do capital humano mais valioso da Galiza, sem,  porém, ter-se traduzido na aparição de alternativas políticas fortes e credíveis.

Duas dessas forças, a Fronte Popular Galega (FPG) e Primeira Linha/Nós-UP são na verdade partidos marxista-leninistas como a própria UPG e, racional e  objetivamente, não faz muito sentido a sua (auto) exclusão do BNG.

Convergência XXI é um partido ultra-liberal cuja extrema radicalidade faz com que tenha difícil acomodo em qualquer coligação, não sendo como os liberal-conservadores do PNG, hoje ainda no Bloco.

O Partido da Terra e Ecogaleguistas, com programas muito semelhantes, representam uma nova esquerda ecologista que está a demandar uma democracia participativa radical, bastante em sintonia como o próprio Beiras.

Seja qual for a nova configuração do galeguismo político, é claro que todas as forças políticas galegas estão condenadas a se “entenderem”. Porém, se calhar é melhor que, em troques de formar blocos metaestáveis como o próprio BNG, cada uma delas conserve a sua própria identidade. Uma identidade que deve ser nítida para a sociedade (ao contrário do que acontece hoje). A partir dai, sempre será possível estabelecer coligações eleitorais mais ou menos pontuais, tipo Amaiur, para alcançar uns objetivos concretos.