BeNeGhá: Corazón partío

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Bipartidismo

As eleições autárquicas e autonómicas que vimos de padecer confirmaram mais uma vez o teimudo enraizamento do bipartidismo. A indignação dos indignados teve um efeito pequeno na abstenção (que diminuiu um quase nadinha), nos votos brancos e nulos (que aumentaram um bocadinho) e no voto a dois dos partidos estatais minoritários (que cresceram de maneira essencialmente desprezável). É possível que, se as mobilizações indignadas persistirem, as mudanças pudessem chegar a ser mais significativas, mas eu pessoalmente sou cético a respeito do alcance do movimento a curto e meio termo. O qual quer dizer que imos ter bipartidismo para rato. Na prática isto implica mais guerra, mais recortes das liberdades cívicas, mais privatizações e mais desmantelamento do precário estado do bem-estar. Tanto tem que governe o PP ou o PSOE. Reclamar a democracia participativa com maiorias absolutas do PPSOE é clamar no deserto. Daquela, que?

Autogestão

A alternativa que tem a população civil passa, na minha opinião, pela autogestão, como já expliquei alhures. Se queremos uma educação de qualidade, livre e não doutrinária, uma sanidade digna, empréstimos éticos para a economia produtiva, alimentos não poluídos, e demais, ou construímos nós próprios uma nova estrutura (por enquanto dentro da que existe) ou estamos aviados. Isso não quer dizer que haja que deixar de reclamar do Estado e as suas instituições o cumprimento dos seus deveres para com os cidadãos. Cumpre continuar numa situação de mobilização e reivindicação contínua, mas em quanto a aritmética eleitoral seja a que é, e vai ser assim por um longo tempo, só fica a opção da minoria consciencializada tomar as rédeas do seu destino. E vai ser solidariedade organizada ou caos.

Evidentemente, dizer é mais fácil do que fazer e, escutando as análises políticas ao fio desta última convocatória eleitoral, é evidente que a maior parte da esquerda continua enquistada na intervenção puramente eleitoral e alheia a qualquer intuito sério de intervenção socioeconómica. Por isso, e porque da autogestão já tenho falado, hoje vou cair eu também em conjeturas eleitorais (centrando-me no galeguismo, que é o que me interessa).

Eleições

No eido galego confirma-se a hegemonia do PP, que conta com um voto muito fidel. Temos que começar a assumir que, para além de votos cativos, acarretagens e manipulação mediática, Galiza é sociologicamente do PP. Sinto-o muito. Os galegos, aliás, como o resto dos espanhóis são indiferentes à corrupção dos cintos, orquestras e demais e demais e demais. Quando menos os galegos que votam direita eleição após eleição. Somos um país analfabeto e corrupto e ninguém faz nada para mudar isso. Adaptamo-nos. Eis a crua realidade. Há que i-la roendo.

O PSOE, pola sua banda, sofre um merecidíssimo voto de punição (e na minha opinião ainda merecia muito mais). Também é sintomático que as políticas estatais afetem tanto numas eleições municipais, mas quando não há maturidade democrática, não há nada a fazer. Na Espanha os cidadãos decidem o voto como quem torce polo Real Madrid ou polo Barcelona. Numa sociedade imatura e alienada os valores e os interesses objetivos jogam um papel muito secundário. O discurso do PP de “con Aznar España iba bien y nosotros habríamos gestionado mejor la crisis” funcionou de maravilha. A primeira parte é falsa. A Espanha com Aznar dava quase o mesmo nojo que dá agora e o resto é propaganda (mas já se sabe que The Economist ou The Financial Times sempre apoiam os reagano-thacheristas e castigam as meias tintas). O pior é que a segunda asserção é provavelmente correta. O PP teria administrado “melhor” a crise. Por que? Porque o PP aplicaria estritamente as receitas neoliberais impostas polos seus amos. O PSOE também, mas o PSOE para além disso tem que esbanjar recursos fazendo algum que outro gesto socio-cosmético para alimentar a miragem de não ser a mesma merda que o PP. Roubar, roubam o mesmo, assim que nisso não há diferença.

O Bloco, como não podia ser outramente, continua a sua inexorável queda cara a irrelevância absoluta. Mas a isso voltarei mais tarde. IU beneficia-se um bocadinho disso (pouco) e um bocadinho dos indignados. Se calhar volta ao parlamentinho. Mas por enquanto não dá para muito mais. A crise da(s) esquerda(s) na Europa é profundíssima, ao pairo entre um dogmatismo tresnoitado e um possibilismo estéril. Totalmente desconectados da sociedade.

A esquerda soberanista (es cosa de hombres), não ganhou muitos votos (na verdade acho que quase os duplica, mas isso continua não sendo nada). O importante é que por primeira vez em certos concelhos como Compostela, sim que existia uma candidatura com certa credibilidade que falava dos problemas das pessoas, tentando pôr de lado, quando menos em termos relativos, o fundamentalismo valeiro que caracterizara tradicionalmente o movimento. Continua a fragmentação. Disso também falarei mais adiante.

Por fim, a novidade dos últimos anos constitui-a o centro-direita galeguista. Algum rosto conhecido da cidadania misturado com um morno e amável regionalismo populista valeu-lhes um feixe de vereadores e até algum concelho. Mais uma vez minifúndio, egocentrismo e atomização. Chegarão um dia a confederar-se as tribos e, se chegarem, serão fagocitadas outra volta polo PP, como acontecera com a promissória Coligação Galega? O ideal, ser seria eles, unirem-se apra libertar o galeguismo que ainda fica preso (e cada dia mais marginalizado) dentro do PP. Mais isto é Galiza… reserva comanche.

O galeguismo

Se vivêssemos numa sociedade madura e racional o galeguismo teria-se reestruturado há tempo. Não apenas o Bloco, o galeguismo. Quando o Bloco deu o sorpasso a pouco que refletíssemos era óbvio que estava a tocar teito. Mas prevaleceram a comenência e o wishful-thinking (que sempre adoitam ir da mãozinha um atrás doutro). O Bloco chegou onde chegou (400 mil votos) sendo acusado polos media de ser amigos dos amigos da ETA, a petar com o sapato na mesa e deixando na sarjeta Izquierda Unida. Para mais, na altura ainda era uma força eminentemente urbana. De onde pensavam que vinham os votos? Com esses géneros era óbvio que não poderia ser nunca uma força hegemónica (ou sim? isso nunca o saberemos). Então alguém teve a “brilhante” ideia de que o bloco poderia ser transmutado numa sorte de monstro de Frankenstein com quarto e metade do PSOE, um algo do PP, um muito de CiU e uma piscadela a ERC para disimular. Apanhando votos a destra e sinistra e tudo isso estando controlado no seu cerne por uma seita leninista e sendo ao tempo alcoviteiros do PSOE. Admitamo-lo, era muito demais.

O resultado à vista está. Um partido acomodado, ainda controlado polo leninismo, com uma estrela vermelha por bandeira e que joga que joga a ser cool e respeitável e a competir com o PP por o voto da direita sociológica rural. Esquizofrénico. Isso, amigos, não o crê ninguém. O votante de direita ri enquanto o de esquerda vomita. A marca eleitoral BNG neste momento está mais deteriorada do que nenhuma outra na Galiza e não vejo como pode ser restaurada. Mágoa para o galeguismo, depois de tanto trabalho e tantas esperanças. Escusamos dizer que o BNG durante estes últimos anos de alienante orgia institucional abdicou de quase qualquer presença ou didática social até se converter num OVNI em quase todos os bairros das hiper-espanholizadas vilas galegas.

À esquerda do bloco o panorama não é muito mais esperançoso. Como a UPG ou o PCE, tanto a FPG, quanto Primeira Linha e Nós-UP têm em comum essa mesma visão tresnoitada do comunismo, que antes chamei leninista, segundo a qual o Partido (único, ser for possível) é o centro da sociedade e todos os movimentos sociais devem ser tentáculos ao seu serviço. Estas estruturas fechadas e impermeáveis, guardiãs das essências, faziam muito sentido na resistência anti-franquista e na clandestinidade. Hoje condenam a esquerda a ser uma excrescência social fechada sobre si própria. Com uma miríada de micro-estruturas a tentar controlar e mangonear tudo, não é estranho que a sociedade prefira ficar de costas viradas perante um movimento que não quer nem pode conhecer, nem entender e no que não podem participar e no que só os iniciados se reúnem em petit-comité para pré-cozinhar as decisões que depois tentaram impor, pola táctica da machucadura, em assembleias mais amplas. Uma mistura de dogmatismo religioso e de medo a perder o controlo que funcionou bem como estratégia de resistência mas que carece de capacidade expansiva.

Depois claro, tanto dentro destes cernes leninistas como ao seu redor (e sendo ultra-críticos com eles) temos toda uma coorte de políticos profisionais que têm só duas opções: o escano ou o paro. Não espanta logo que o galeguismo institucionalizado tenha optado por estratégias políticas ultra-conservadoras que visavam fundamentalmente que o politburo não perdesse os seus postos de concelheiros e conselheiros. Pouco importa se o Bloco ou o galeguismo inteiro se afunde sempre que eles posam salvar o seu cu. Eis um dos mecanismos através dos quais a política de partidos sequestra a democracia.

Estratégias eleitorais

Visto como estão as cousas, e desde uma perspetiva eleitoralista, o lógico e racional seria ter dous partidos galeguistas (dous, não cinquenta):

– Um partido de centro-direita populista que aglutinasse toda a sopa de letras atual (e a tudo o que ainda está em cernes) e que se virasse um sério competidor para o PP. Agora que o sector da boina está absolutamente marginalizado e semi-decapitado e com Madrid a pressionar para decapitá-lo de vez, um partido galeguista pré-existente poderia aglutinar muito do descontento chegado o caso. Confederai-vos!

– Um partido de esquerdas coerente mais ao mesmo tempo aberto à sociedade. Que não tenha medo de experimentar com a democracia participativa. Sempre a pé de rua e consciente de que a sua função é formar e coesionar a sociedade. Escrupulosamente coerente na defesa dos interesses da maioria social. Sem presas por chegar ao poder (particularmente quando isso implica alianças envenenadas).