Eutanásia e ecossistemas

Eutanásia e ecossistemas

Eutanásia

Venho de ler as reflexões que Maurício Castro deixou escritas sob o título “Reativar o conflito lingüístico ou morrer em silêncio“, as quais, como tudo bom artigo, estimularam na minha mente a vontade de deixar também alguns apontamentos para o debate.

Comecemos com aquilo com o que mais concordo. Concordo plenamente com que o discurso e as políticas linguísticas do governo de Núñez Feijóo representam um verdadeiro ponto de inflexão a respeito do discurso e políticas dominantes durante os sucessivos mandatos do nefasto Fraga Iribarne. Concordo também com que essa mudança obedece a uma análise sociológica acertada das transformações acaecidas (e das não acaecidas) nas últimas três décadas na sociedade galega.

Como sabemos, os assessores de Fraga Iribarne teceram um discurso baseado na miragem do chamado “bilinguismo harmónico” –a convivência simétrica e cordial entre duas línguas. Tal conceito conferia um caráter analgésico ao brutal processo de substituição linguística que está a padecer a comunidade galega. Esta miragem discursiva foi acompanhada de políticas linguísticas que visavam, nunca reanimar ou reviver o paciente, mas simplesmente permitir que este morresse recebendo aqueles cuidados e atenções mínimos exigíveis pela caridade cristã. As vantagens desta estratégia eram claras: duma banda converter os últimos estertores da língua num processo menos doloroso e relativamente não conflituoso; e, da outra, promover a mansedume do galeguismo institucional, de forma que este, não apenas ficasse tranquilo nos seus chiringuitos financiados pela Junta, como também contribuísse para o apaziguamento social e, em particular, para o dos sectores maioritários do nacionalismo galego.

A trapaça funcionou bem. Embora o galeguismo era consciente de que a perda de falantes era contínua (se bem é verdade que os mais recentes dados quantitativos foram ocultados até depois das últimas eleições autonômicas), acreditava ainda na miragem de que o prestígio social da língua continuava a crescer e que o suposto status quo político, e nomeadamente as políticas de normalização linguística, só poderia ser mudado para melhor. Relativamente a este último aspecto, acho que poucos eram os que alviscavam um cenário involutivo a curto termo. Mas os think-tanks da direita nacionalista espanhola, se me permitem o pleonasmo, tinham uma visão mais realista da situação. Eles eram plenamente conscientes de que as inercias herdadas do franquismo (na verdade já de muito antes) continuavam a operar na sociedade e que, embora a sociedade galega estava feliz com a miragem do bilinguismo harmônico, também era susceptível de recuar até posturas próprias do franquismo se as camadas dominantes assim o exigiam. Era preciso simplesmente enviar uma mensagem clara. Assim foi criado o colectivo ultra Galicia Bilingüe, o qual, com o suporto dos meios de comunicação de massas e de elementos do próprio PP, começou a propagar um discurso bifuncional: por uma parte havia que deixar claro que os estigmas sociais do galego continuavam plenamente vigentes; e, pela outra, havia que fornecer às pessoas já comodamente instaladas no castelhano um discurso justificador que conotava positivamente a imposição do castelhano (libertad, democracia, utilidad, universalidad, ciudadanía, progreso) e negativamente a conservação do galego (imposición, nacionalismo, aislamiento, derroche de recursos, carácter superfluo, atraso), em claro aggiornamento dos valores franquistas.

Com o PP de novo no governo da Junta, a política linguística está, como vemos, a evoluir cara uma estratégia de eutanásia ativa que priva o doente de tudo soro e medicamento. O discurso, pela sua parte, é absolutamente delirante –embora os meios e a nossa anormalidade social o façam parecer razoável– ao combinar elementos de continuidade com o bilinguismo harmônico fraguiano com outros de estigmatização dos falantes e de justificação da substituição linguística.


Ecossistemas

Até este ponto chegaram as análises convergentes e aqui começam as matizações. Sim, porque percebo nas reflexões de Maurício dois elementos quase onipresentes no discurso galeguista das últimas décadas dos que me vou permitir discrepar ligeiramente. O primeiro é o que eu entendo ser um sobredimensionamento do papel das políticas linguísticas (e das políticas em geral) no retrocesso do galego. O segundo é um apelo constante à heroicidade do povo para reverter esta situação. Os dous elementos costumam aparecer conexos na mitologia galeguista mais ou menos da seguinte maneira “o heróico povo galego manteve a sua língua após 500 anos de opressão, mas a repressão fascista seguida das nefastas políticas da Junta tiveram como consequência uma vertiginosa queda de falantes”.

Porém, eu acho que podemos entender melhor o processo de substituição linguística em termos de ecossistemas. É inegável que desde os tempos dos Reis Católicos o projecto castelhano/espanhol vem definido por uns objetivos explicitamente homogenizadores e uniformizadores no cultural, no linguístico, no religioso e no político para todos os reinos submetidos às supremacia da coroa castelhana. Trata-se dum longo processo que vai passando por distintas fases. Na Galiza, ainda na primeira metade do século XX, com mais dos 80% da população monolíngue em galego, os objetivos linguísticos do programa podiam-se considerar um fracasso absoluto. Mas na segunda metade do século XX a pirâmide linguística é finalmente invertida de maneira verdadeiramente fulgurante. As análises do galeguismo focam a responsabilidade na repressão franquista. É evidente que o regime fascista jogou um papel fulcral na queda do galego, mas na minha opinião não foi esse o fator principal.

Na verdade, no meu entender, a anomalia não radica no facto do galego estar a recuar vertiginosamente nas últimas décadas, a anomalia é o galego ter-se conservado como língua maioritária da Galiza até este preciso momento histórico. A causa principal, embora não única, é de natureza econômica. À Galiza, como a outras partes da Espanha, não chega a revolução industrial na sua forma plena até os anos 60 do século XX. Até então a sociedade galega é eminentemente rural. Trata-se duma estrutura socioeconômica relativamente ancestral, conservadora, e largamente auto-sustentável e auto-suficiente. Nesta sociedade, as redes de ensino estatal, principais vectores de uniformização, ou não existem ou existem de forma muito deficiente. O mesmo podemos dizer dos meios de comunicação. Existe uma camada social privilegiada que fala castelhano e que faz de intermediário entre o povo e uma feble administração do Estado. Neste contexto, neste ecossistema socioeconômico, para a maioria da povoação galega o castelhano é uma língua supérflua, desnecessária. Em primeiro lugar não têm forma de aprendê-la corretamente. Em segundo lugar se tentam falar castrapo vão ser escarnecidos pelas classes dominantes (por falar mal o castelhano) e pelos seus pares (por quererem ser mais que os demais). A pressão social “natural” joga fundamentalmente a favor de conservar a língua própria, neste caso o galego. Aliás, nesta sociedade tradicional, não existe a miragem da ascensão social. Simplesmente é impossível e todos são conscientes. Em tais circunstâncias, para que mudar de língua? Seria ridículo.

Mas na década dos 60 do século XX, canda à industralização da faixa costeira da Galiza, produz-se um processo que no resto da Europa teve lugar no século XIX, o deslocamento maciço de população rural para as vilas e cidades. Esta nova população urbana, desraizada do seu meio natural e social, individualizada, é um alvo fácil para a aculturação. O facto deste processo ter coincidido com o terror franquista faz com que os seus efeitos sejam ainda mais dramáticos, mas acho que não muda o essencial. Na cidade os pais devem encontrar um trabalho para alimentar a família, enquanto as crianças são escolarizadas exclusivamente em castelhano em escolas que inoculam a propaganda e os valores do nacional-catolicismo. A adaptação a este novo meio, a este novo ecossistema, exige a aprendizagem do castelhano (ou a melhor aproximação possível) e a transmissão desta língua às crianças.

Para além da mera sobrevivência, a adaptação ao novo meio traz consigo uma transformação radical do sistema de valores. Primeiro, se no rural o indivíduo faz parte duma comunidade, na cidade o indivíduo está sozinho. Se no rural querer ser mais que os demais sem sê-lo (falando castelhano, por exemplo) é fonte de escárnio, na cidade é o principal objectivo vital (se não o foi já da primeira geração, será-o da segunda). Aliás, tudo processo de industrialização e de urbanização precisa da miragem da ascensão social, a qual, não podendo ser real na imensa maior parte dos casos, é simbólica. Assim por exemplo, no novo sistema de valores, qualquer característica ou atividade associada ao agro ou à pesca é considerada denigrante (até se for muito rendível), enquanto trabalhar num escritório (até se há que ficar longas horas e ser humilhado por uma miséria) é considerado um ascenso social. Tudo aquilo relacionado com os modos de vida tradicionais é associado ao atraso e deve ser destruído ou agachado. Morar numa casa é uma vergonha, o moderno é viver num apartamento. A destruição dos valores tradicionais é complementada por uma visão do progresso extremamente destrutiva e classista. O estigma na Galiza é particularmente brutal. Tem de sê-lo por possuir a nossa situação duas características (três se tivermos em conta o seu caráter anacrônico) que a tornam diferente à sofrida noutros lugares: primeiro porque, para além do dito, leva implícita a migração violenta dum sistema cultural (o galego) para outro (o espanhol); mas também porque o campesinhado galego que vai ser transmutado em massa assalariada está composto fundamentalmente por pequenos proprietários e não por simples jornaleiros. O trauma é enorme. O resultado é um profundo auto-ódio e, como consequência, uma sorte de travestismo compulsivo que nos leva a negar tudo aquilo que somos.

Mas as consequências do processo de industrialização (com o seu corolário espanholizante) não atingem apenas a população já urbanizada como também a ainda urbanizável. No ideal de progresso do “desarrollismo” franquista, no agro não há futuro (e se o houver não é digno). Por isso também as camadas rurais devem transmitir os novos valores aos filhos (incluída, ou principalmente, a língua castelhana). Porque os filhos também estão chamados a deixar um dia o campo para encontrar um trabalho numa fábrica ou num escritório e assim usufruir também das “vantagens do progresso” (e da miragem do ascenso social).

Conclusões

Assim interpretados os fatos, o mito da heroicidade do povo fica reduzido ao absurdo e a importância das políticas ou até da repressão explícita, relativizadas. Estamos a falar de processos adaptativos. Fazer apelos à resistência é necessário, mas temos de ser conscientes de que só vão ser escutados por uma minoria. A maioria simplesmente adapta-se (e já avondo tem com isso). Há uma dupla vertente de trabalho: os valores e a estrutura. O galeguismo leva trabalhando durante as últimas décadas na tarefa de alterar, de forma limitada, os valores. Mas os valores hegemônicos (prestígio da língua, por exemplo) só podem mudar na medida em que a estrutura mude. No contexto da conservação da língua galega, há duas transformações estruturais que podem levar implícitas mudanças de valores o suficientemente importantes. Uma seria a via altermundista que passaria pela criação de redes de solidariedade ou até duma administração paralela (galescolas, cooperativas, mutuais sanitárias, democracia participativa, etc.) que rachem o isolamento social e a dependência do estado e das corporações. A outra consistiria em assumir que estamos numa sociedade capitalista, e por ende classista, e que enquanto as cousas sejam desta maneira, apenas as camadas superiores (os possuidores dos meios de produção) é que podem mudar de forma significativa os valores (a meio da discriminação, negativa ou positiva, como estão a fazer e sempre fizeram). Perante esta constatação, e enquanto não  houver capacidade e/ou vontade de mudar de forma profunda a estrutura, o único que ficaria seria, quer resistir como minoria, quer construir um capitalismo galeguista.