La resistance

La resistance

O espectador ocidental mais avisado leva semanas sentado tranquilissimamente na sua poltrona a consumir a sua dose diária de narcóticos na forma de notícias escritas, radiadas ou televisionadas e a se perguntar até que ponto as revoltas no norte da África e no Oriente Meio obedecem mais a uma lógica interna ou externa. Por outras palavras, até que ponto são expressões espontâneas do descontento popular e até que ponto são crises programadas e induzidas desde o exterior. Sem dúvida os dous factores, endógeno e exógeno, jogam um papel, mas qual seria o predominante? É a mesma pergunta que nos fazíamos durante o conflito Jugoslavo.

Por uma parte sabemos que o governo francês levava meses a projectar uma intervenção militar em Líbia (depois de Kadhafi ter financiado a campanha do ingrato Sarkozy!). Porém, hoje, no meio do debate sobre a legitimidade de armar os rebeldes líbios, vimos de aprender que uma parte desses rebeldes seriam membros na nossa desorganização terrorista favorita depois da ETA, Al-Qaeda. Alguns até teriam combatido contra a invasão americana no Afeganistão. Na verdade a descoberta não poderia ser mais feliz, já que isto quer dizer que, uma vez que tenhamos derrocado Kadhafi, poderemos bombardear sem remorsos qualquer um que se interpuser entre nós e o nosso petróleo. Avonda com arguir que esse qualquer um é um terrorista de Al-Qaeda e pronto. Al-Qaeda é realmente um invento fantástico. Até o ponto de que se não existir teríamos que reinventâ-la.

A lógica é esmagadora, nunca melhor dito, primeiro vamos utilizar os rebeldes para derrocar Kadhafi e depois vamos cagar a bombas os rebeldes que, num arrouto de tresnoitado patriotismo, ousarem se interpor entre nós e o ouro preto.

Há precedentes. Muitos. Por exemplo, quando as tropas americanas entraram em Paris em 1944 o primeiro que fizeram fora contratar altos oficiais nazistas como Klaus Barbie, o carniceiro de Lyon, para machucar a resistência socialista no sul da França. O mundo livre não podia correr o risco de que o investimento gastado em libertar a Europa não pudesse ser depois convenientemente amortizado caso os verdadeiros heróis da resistência recebessem o apoio popular numas eleições democráticas. Havia que eliminâ-los. Hoje é a mesma cousa, mas hoje felizmente temos a álibi de Al-Qaeda, que serve para tudo. Para que depois ainda haja quem diga que não aprendemos nada da história.