Marly Gomont (Kamini) legendado em galego-português

Este vídeo caseiro catapultou à fama o rapeiro francês Kamini. Centos de milhares de visualizações no YouTube levaram Kamini aos telejornais. Desde aquela já gravou dous discos. Em Marly Gomont, fala com humor da sua infância numa aldeia do norte da França. Disponível no YouTube, Vimeo e Blip.tv.

LETRA

Marly-Gomont (Kamini)
dedicado a todos aqueles que vêm de lugares afastados da mão de deus
essas aldeinhas perdidas das quem ninguém nunca rapeou
mem mesmo um flow
esses lugares esquecidos que nem até mesmo a França sabe que fazem parte dela
esses lugares esquecidos que ninguém conhece nem mesmo Jean-Pierre Pernault
chamo-me Kamini
não venho dos subúrbios,
venho duma pequena aldeia chamada Marly Gomont
e agora já tamos a subir no beat eh o beat eh que faz ta da da da dim
em Marly Gomont não há asfalto
65 anos a média de idade na contorna
uma quadra de tênis, uma quadra de basquete
très moços na aldeia, pra jogar não é o mais ótimo
venho duma aldeia esquecida em Aisne, Picardia
tranquilamente 95% vacas, 7% paisanos e, no meio deles
apenas uma família negra, e tinha que ser a minha, foder, que puto pesadelo
falei com o meu pai
“bem poderíamos ter ido dar a Moscovo, não é?
não haviamos notar muita diferença nem na temperatura nem na gente”
ele disse: “eh, que dizes, queres-te rir de mim, ti, tudo vai sair bem, eh”
se tu o dizes, eu tinha 6 anos, primeiro dia de escola
sabes o que eu chorei por culpa daqueles papaleisões
sabes como me chamavam? “eh Bamboula, eh Petito, eh Bamboula, eh Morena, eh”
pola boca das crianças fala amiúde a verdade dos pais
não venho dos arrabaldes
mas o beat é bom
não sou de Panam
mas de Marly Gaumont
lá não há asfalto
não há mais do que prados
mas isso não quita que leve tragado avondo merda
no Marly Gaumont as pessoas não falam calão
“falam como assim no lugar, e é-vos bem avondo”
às vezes querem-te bem
“eu não gosto dos árabes, eh, eu não gosto de pretos,
mas a ti quero-te bem, mália seres negro”
de quando em vez até fazem política, e com muita filosofia
“mira o que che digo, é todo uma podrémia, eh”
nesses lugarinhos, melhor não padecer do coração, se não vais dado
faz falta atravessar vinte aldeias, 50 quilómetros, pra chegar a um hospital decente
aló não há mais que prados
por vezes há um jogo de futebol no domingo
o estádio é um prado sobre o que pintaram umas linhas
colocam-se as portarias e as redes
na equipa local há sempre um gajo que lhe chamam Keké “dá-lhe Keké, dá-lhe Keké”
e se não na outra equipa ha sempre um Biquette “vamos Biquette, vamos Biquette”
um dia típico no lugar, o carteiro, um trator e nada…
bom, sim, uma vaca de quando em vez
não venho dos arrabaldes
mas o beat é bom
não sou de Panam
mas de Marly Gaumont
lá não há asfalto
não há mais do que prados
mas isso não quita que tenha tragado avondo merda
e no infantário, eu era o único negro
e na merda da escola, eu era o único negro
e no puto liceu, eu era o único negro
do jardim de infância ao liceu, lapada trás lapada
que se perdiam na natureza ou na razão
meu pai me dicia o tempo tudo “tá bem, não faz falta brigar, eh filhote”
mas eu tinha vontade de me revoltar, mas lá não há nada que queimar
há um autocarro para a escola que é o mesmo que vai ao centro de lecer
escusas ir queimar o carro do vizinho
não têm carros, todos vão de vespino
para além de que a padaria fica a 8 km
8 km  todas as manhãs de vespino!
vai cas Vincente, marchou au disimulo?
ah, não, aqui não temos nada disso, eh foi de vespino, eh
marchou de vespino, eh, o metro das aleias remotas
é o beat, eh, o beat, eh, que faz ta da da da dim
dedicado a todos aqueles que vêm de lugares afastados da mão de deus
essas aldeinhas perdidas onde tudo é miséria
onde não há nada a fazer, onde tudo é couto
esses lugares perdidos que ninguém conhece nem mesmo Jean-Pierre Pernault
não venho dos arrabaldes
mas o beat é bom
não sou de Panam
mas de Marly Gaumont
lá não há asfalto
não há mais do que prados
mas isso não quita que tenha tragado avondo merda