Galiza apartheid (III) : Autophobia (II)

Galiza apartheid (III) : Autophobia (II)

O 13 de Julho de 2006 a cidade de Vigo estremecia-se ao saber do duplo homicídio que vinha de ser cometido na rua Oporto. Um homem vinha de matar brutalmente, com 57 punhaladas, outros dous, provocando posteriormente um incêndio no prédio para ocultar assim as provas do seu horrível crime. Três anos mais tarde um jurado popular absolvia o criminal do delito de homicídio e achava-o culpável apenas do de incêndio intencionado, por entender que os crimes se produziram em “legítima defesa” do acusado polo temor a ser “violado”. Assim, a condição homossexual das vítimas servira ao advogado do culpado para tirar proveito, manipuladoramente, dos preconceitos (e medos) da população face a gays e lésbicas.

Perante a alarma social causada pola absolvição parcial e os recursos apresentados, o Tribunal Superior de Justiça da Galiza declarou nulo o anterior julgamento e um novo juízo, também com jurado popular, está a decorrer estes dias. No decurso do processo diversas testemunhas afirmaram que o assassino é também homossexual. A condição homossexual do arguido fornece este crime homofóbico duma nova dimensão. Sim, porque, a homofobia do culpado resulta ser na verdade auto-fobia ou, por outras palavras, auto-ódio.

Sem ter noções de psiquiatria, temos a impressão de que o modus operandi sugere que o arguido precisava apagar quaisquer traças de si próprio. Qualquer elemento, vivo ou inerte, que lhe recordasse quem ele é. Esta hipótese explicaria, na nossa opinião, melhor do que qualquer outra a sanha com a que ele actuou.

Sanha e modus operandi que lembram a a sanha e modus operandi do PP, e nomeadamente deste governo dos Feijoo e Vázquez, contra qualquer elemento, seja este material ou imaterial, que lhes faça lembrar que a Galiza existe e que tem uma identidade de seu. Qualquer elemento que monstre quem eles são e de onde vêm. Que seja a língua, a cultura, ou o médio natural, cumpre apagar com sanha compulsiva, a faca e lume, qualquer traça da nossa ignominiosa existência. Uma, duas, três, trinta, cem, mil punhaladas. Não avonda matar, precisam da erradicação total desse mal que é a nossa existência colectiva. Lume! Até no veredicto e no desenlace, os paralelismos são evidentes.

Já disse Feijoo que eles o que querem é virar madrigallegos. Ou, melhor, simplesmente madrileños, sin gallegos ni gaitas. Não, Alberto, não. Poderás chegar a ministro se é o que queres, se calhar até a presidente da tua Espanha de caspa e pandeireta, mas nunca hás ser como eles. Em Madri sempre serás um gallego rarito. Depois de tanto sangue e de tanto lume, de tanto auto-ódio, ficará apenas o nada. O nada das cinzas do teu crime. E, essas cinzas e esse crime, hão te lembrar por sempre, mal que te pese, quem és e de onde vens.