Nacionalismo apriorístico

Nacionalismo apriorístico

Ao longo da história o projecto das Hespanhas foi atravessando diversas fases. Em uma primeira fase as elites militares do Reino da Galiza são decididamente “hispanistas”, no sentido moderno de “iberistas”. De facto, a génese do Reino de Castela vai ser em grande medida liderada pola aristocracia galega. Porém, a medida que o Reino de Castela se expande cara o sul, não só os eixos de poder basculam de norte a sul, se não também de oeste a leste. Assim, Castela passa de ser um projecto eminentemente galego a ser um projecto cântabro-biscainho, onde o Reino da Galiza vai ficando em uma situação mais periférica. Sem dúvida, o abandono do projecto pan-hispânico por parte da nobreça galega do sul, que decidiu dotar-se dos seus próprios reis e fundar o Reino de Portugal, piora ainda a situação galega no contexto do reino castelhano. É assim que a Galiza passa de ser metrópole a ser colónia. Embora esta progressiva mudança de status criou certas tensões e algumas revoltas na Galiza, a parte mais importante das elites galegas continuarão a apoiar, até hoje, o projecto das Hespanhas, mais tarde A Espanha. Entanto, as elites portuguesas distanciariam-se simbolicamente da matriz galega a meio da criação do mito lusitano.

As ideias da ilustração inspiram alguns intelectuais galegos, nomeadamente religiosos, a denunciar a precária situação colonial que vem padecendo a Galiza desde a baixa Idade Meia. Posteriormente, os românticos desenham para a Galiza o mito da eterna aldrajada, a imagem e semelhança das outras terras celto-atlânticas, nas que a miséria e o atraso semelham ser consequência de algum feitiço, encantamento ou maldição da era artúrica. O romanticismo vai deixando passo a um regionalismo cultural que, já no século XX, organizaria-se politicamente na forma de partidos. Em consonância com a moda da época, o Partido Galeguista remata por se auto-proclamar “nacionalista”. Nacionalismo que, também seguindo a moda vigente, é mais romântico do que materialista. Porém, o Partido Galeguista tem um genuíno projecto político “nacional” para a Galiza, nacional no sentido de global, um projecto de Estado. Um projecto que visa melhorar as condições materiais dos galegos e que, precisamente por isso, desafia constantemente o marco institucional vigente na Espanha. O franquismo destrói tudo isso.

Não vamos falar da história recente nem de como foi a reconstrução do galeguismo desde o tardo-franquismo até o Estado das Autonomias, passando pola restauração Bourbônica. Do que queremos falar hoje é do que nós percebemos como ausência total de um projecto de Estado galego. Na nossa opinião, o galeguismo está divido hoje em duas correntes de acção.

Por uma parte temos um galeguismo de denúncia e reivindicação, principalmente representado polo independentismo, que embora sim insista na criação de uma república ou estado galego e faça deste objectivo a sua razão de ser, é absolutamente incapaz de delinear as estratégias práticas que conduziriam a um tal cenário. Na praxe, a acção do independentismo é uma queixa contínua, tão inócua como impotente, no plano simbólico.

Pola outra, temos um galeguismo que passou nas últimas décadas de reivindicador a gestor do Estado das Autonomias. Um galeguismo que se esforça para os cidadãos perceberem que ele não desafia o marco institucional vigente na Espanha. Um galeguismo pedinchão que se conforma com ver aumentada a sua porção da torta autonómica.

Ambas correntes denominam-se anacronicamente (não convém esquecermos que o termo “nacionalismo” está negativamente conotado em toda a Europa) de “nacionalistas”, mas ambas as duas carecem de projecto de país. Uns afirmam que a Galiza deve ser independente por ser um nação, ou como muito, denunciam as nocivas consequências da nossa inserção colonial no contexto espanhol. Outros, conformariam-se com ver a palavra “nación” impressa no Estatuto de Autonomia da Galiza. Em ambos os casos o conceito de “nação” é um simples apriorismo no que fundamentar a sua ração de ser e as suas reivindicações.

Isto contrasta vivamente, por exemplo, com a praxe e o discurso do Partido Nacional Escocês (SNP). Primeiro, no plano meramente simbólico, observemos que é “nacional” e não “nacionalista”. Assume-se com naturalidade. Segundo, eles têm umas propostas concretas para o desenvolvimento da Escócia. Umas propostas globais, umas propostas de Estado, que não dependem do marco institucional vigente no Reino Unido. O SNP reclama a soberania, não porque Escócia seja uma nação, já que Escócia sempre teve o status de nação dentro do Reino Unido, reclama a soberania para poder desenvolver o seu programa político, orientado para melhorar as condições de vida dos escoceses. A soberania apresenta-se na Alba como uma necessidade prática e não como o fruto de um conceito abstracto como o de “nação”. Existe um projecto concreto, com fases concretas e medidas concretas. Esse projecto é apresentado à cidadania. Dessas medidas concretas para o progresso da Escócia é de onde se deriva a necessidade prática da soberania. O SNP está a desafiar continuamente o marco institucional britânico, não somente no plano simbólico, mas no plano prático. Cada proposta do SNP é um grande interrogante lançado à cidadania escocesa: Olhai o que poderíamos fazer se tivermos Governo.