O aú fechado

O aú fechado

Desde as suas origens na clandestinidade dos anos sessenta, existe no galeguismo de esquerdas um partido que sempre ou quase sempre foi hegemónico. A sua hegemonia está fundada no trabalho constante, na perseverança e na disciplina tanto quanto na ideologia. Na ideologia porque este partido tem uma concepção Leninista das estruturas sócio-políticas. Conceição segundo a qual, o partido deve ser o centro neurálgico da sociedade politicamente activa e, em redor dele, deve ir tecendo uma rede de movimentos sociais satélites subordinados aos superiores interesses do partido.

Não é o propósito desta reflexão a crítica deste modelo de artelhação política per se, a sua legitimidade ética ou a sua consonância com os princípios democráticos entendidos senso strictu. Não vamos ser nós quem julguemos e condenemos ninguém, e muito menos companheiros galeguistas cuja lealdade e entrega para com a Galiza ficaram mais que demonstradas após décadas de incansável trabalho. Quiséramos simplesmente fazer uma reflexão estratégica acerca das consequências práticas, as vantagens e limitações deste modelo baseado no estreito controlo político de tantas organizações sociais e políticas quanto possível.

Pessoalmente achamos que, um tal modelo, pode ser perfeitamente válido, e assim o tem demonstrado a história, quer alheia, quer própria, como estratégia de sobrevivência em circunstâncias adversas nas que os núcleos de resistência são relativamente reduzidos. Porém, no seio duma sociedade poliédrica e plural com forças que operam em diversas direcções e sentidos, o modelo sofre duma incapacidade intrínseca para a expansão. Quando menos como modelo aglutinador de elementos progressistas e de esquerdas. Na direita, obviamente, é outro cantar.

Não é que nós proponhamos aqui descartar completamente a estratégia. Mas temos claro desde há tempo que, se o galeguismo político quer medrar, as estratégias de resistência, de “núcleo duro”, devem ser complementadas com aproximações mais abertas e, em consequência, mais arriscadas. Neste sentido, o galeguismo já há tempo que alcançou a massa crítica suficiente para jogar em frentes plurais e diversas. Forçá-lo, por excessiva prudência, medo ou vontade de controlo, com calçadeira a ficar com o sapato da Cinderela conduz, tal e como estamos a observar desde há bem tempo, a traumas e patologias destrutivas. Conflitos que têm como resultado o esbanjamento de valiosas energias, a queima de bons e generosos, o debilitamento interno e o deterioramento da imagem social do galeguismo. Mas o pior é que as facções enfrentadas ficam amiúde como inimigos políticos e pessoais irreconciliáveis, deixando graves feridas dentro do movimento galeguista.

Vimo-lo no caso do ecologismo. A fractura entre os que acham que os movimentos sociais devem agir independentemente e os que consideram que são instrumentos ao serviço do partido era inevitável. Os segundos ficaram com as siglas tradicionais e os primeiros foram quem de criar uma nova e vigorosa associação. O resultado líquido é positivo. O dano social importante.

Voltou acontecer com o sindicalismo agrário. Neste caso, foi a “dissidência” quem ficou com a siglas e os adeptos do partido os que estão a tentar reorganizar-se. Desejamos que o resultado prático seja similar ao do ecologismo, duas forças fortes e viçosas, mas o dano político está a ser monstruoso.

Quanto tempo vai passar antes duma tal fractura acontecer na força política maioritária do galeguismo? Ameaças já tem havido. Agora a questão é se se vai produzir uma separação voluntária entre amigos e aliados que têm compartido muito ou se vai ser um outro doloroso divórcio de cônjuges frustrados e amargurados.

Na nossa humilde opinião cumpriria ir preparando o caminho devagarinho mas sem pausa. Vai frio fora e as experiências das esquerdas independentistas não são particularmente encorajantes. Mas cumpre ir criando uma alternativa. Sementando. Alternativa que na nossa humilde opinião deveria ter como valores fundamentais a honestidade, a ética, a meritocracia e a abertura à sociedade e que, assim sedo, poderia possivelmente recuperar muitos e muitas dos bons e generosos que foram ficando à margem durante estes anos.

Ao final, seguramente é bom que haja o partido, a resistir e a perseverar em quaisquer circunstâncias que acontecerem. Porém, para o galeguismo se expandir na Galiza de hoje, cumpre dispor, mais cedo do que tarde, doutras ferramentas. Mais atractivas, mais plurais, mais críveis.

As siglas, neste caso, para o partido, pois vêm já lastradas de conotações negativas a direita e a esquerda.