Gürtel somos todos

Gürtel somos todos

A primeira tradução dum poema de Konstantínos Kaváfis para uma língua peninsular aparece da escolma do escritor basco Joseba Sarrionandia Izkiriaturik aurkitu ditudan ene poemak (Poemas meus que encontrei escritos).  Não posso afirmar que o artigo de Benjamín Prado em El Pais intitulado Gürtel somos todos seja um artigo meu que encontrei escrito, pois o jornalista deste periódico espanhol pró-PSOE limita-se a recriminar a suposta estupidez dos votantes do PP. Eu, em partindo do mesmo título, este sim, um titulo meu que já encontrei escrito, irei muito mais longe.

O problema do caso Gürtel é precisamente o de não ser um “caso”‘. O problema do caso Gürtel é que é um perfeito reflexo duma estrutura. Da estrutura económica, politica, social e psicológica da sociedade espanhola. Uma sociedade onde quem não é corrupto é simplesmente porque ainda não teve ocasião. Se a direita é intrinsecamente mais corrupta é simplesmente porque tem mais oportunidades de corromper e ser corrompida. Porque a direita é o capital (e um sector particularmente interessante desse capital são os meios de comunicação).

Quando o poder do capital, o verdadeiro poder, aglutina também o poder politico, o resultado é uma estrutura mafiosa realmente “intocável” no económico, um regime totalitário no político e uma podrémia esclerotizante no social. Por isso é que ao cidadão livre, independentemente das suas tendências politicas, não deveria interessar-lhe que se produza uma tal acumulação de poder.

O cidadão livre tem que fazer por equilibrar a balança acrescentando um contrapeso no politico e no social, únicas esferas onde lhe é permitido fazer algo de força, pouca. Não com a finalidade de rematar com a corrupção, que é, em maior ou menor medida, inerente ao sistema (alguns dirão até que inerente à “condição humana”). Não é possível acabar com a corrupção quando todos somos corruptos. O objectivo é aquele muito menos utópico de impedir uma acumulação absoluta de poderes nas mãos dos poderosos. Uma acumulação de poderes que conduz irremissivelmente à uma corrupção total que não conhece limites.