Carta aberta a Anna-Kaisa Mustaparta

Carta aberta a Anna-Kaisa Mustaparta

Galicia Bilingüe invita um membro do Conselho Nacional de Educação de Finlândia, a senhora Anna-Kaisa Mustaparta, com a esperança de que explique aos galegos de bem as virtudes da segregação linguística na escola. A senhora Mustaparta, porém, em entrevista no Faro de Vigo, acha que a segregação não faz sentido na Galiza e até opina que a solução ideal poderia ser um modelo bilingue 50-50 como o que propunha o revogado decreto contra o que se levantaram em armas os sectores mais combativos do nacional-catolicismo espanhol. Mustaparta, desconhecedora da realidade galega, confessa não entender bem qual posa ser a origem do conflito, que malícia seja de natureza política, e declara-se determinada a indagar. Boa determinação.

Serviçais como somos, tentaremos explicar à senhora Mustaparta em poucas linhas o que está realmente a acontecer na Galiza. Na Galiza temos certas pessoas, como as que organizaram as Jornadas Bilingües, que têm medo dos seus filhos receberem uma educação distinta da que receberam eles próprios. Uma educação sólida e sem fissuras onde a Espanha era uma, grande e indivisível unidade de destino no universal. Também disque era livre, e daí precisamente tiraram eles a sua sui generis conceição da liberdade. Onde resultava que os que garatujaram as rochas de Atapuerca eram já espanhóis de pura cepa, da mesma estirpe que El Cid Campeador, Don Pelayo e o Caudillo de la Última Cruzada y de la Hispanidad, Francisco Franco. Em resumo, uma grande e antiquíssima nação onde tudo se passa por la Gracia de Dios. E, claro, depois de passar tanto tempo a apreender estes e outros maravilhosos factos, depois de passar a vida toda a tentar falar sin acento e, em definitiva, a apreender a ser espanhóis y olé, depois de tudo isto resulta agora que chegam os meninos da escola a contar umas histórias inverosímeis de que se Pedro Madruga, que se Martim Codax, que se a que toda a vida fora la loca vem sendo agora a Excelente Senhora e assim por diante até Castelao. E isso não. Eso sí que no. Porque não se pode politizar a escola. E têm mesmo alguns professores que até falam galego e quatro ou cinco livros mal traduzidos do castelhano. E claro, passar tantos sacrifícios, toda uma vida, para deixar de ser o que somos, para que agora, quando já estávamos convencidos de tê-lo logrado, nos cheguem as criancinhas da escola com as ideias assim tão confundidas… É uma cousa verdadeiramente horripilante. Não pode ser. Não pode ser que cheguem se calhar um dia pensar que nada é indivisível, ou que, amiúde, a graça de Deus não faz assim tanta graça que digamos. Não pode ser que cheguem um dia pensar que o galego, sim, esse dialecto rústico, é um língua como outra qualquer, como o castelhano incluso, e até internacional e extensa. Que é nossa. Ou que o Cid era um mercenário sem escrúpulos. Ou que Santa Teresa de Jesús dava-lhe às drogas duras em jejum. Que Covadonga é um mito e os Reis Católicos, para além de racistas, talibã e genocidas, também nos quigeram meter uma outra sacrossanta constitución bem dobrada e sem vaselina aos galegos. Não pode ser, em fim, que um dia cheguem pensar. Por isso os 50% são inaceitáveis, os 50 e os 30 e os 10 e o 0.5. Não se podem fazer mais concessões e mesmo, se fizer falta, manda-se o exército dissolver as autonomias e pronto. É assim simples. É por isso que alguns andam revoltados e com milhares de euros de dinheiro público fazem propaganda e organizam Jornadas Bilingües para nos vencer por fim e, se for possível, convencer de que eles têm direito de preservar os seus filhos imaculadamente monolingues e livres, sim, livres de toda poluição galega. Porque o galego , senhora Mustaparta, esta pseudo-língua na que eu mal escrevo, é para eles uma porcalhada.