Da hegemonia social: Alguns apontamentos

NOTA PRELIMINAR

Este artigo foi concebido como um breve comentário. Finalmente alcançou umas proporções desmesuradas que me fizeram considerar publicá-lo como artigo independente. Está escrito às presas. A qualidade é péssima tanto no fundo quanto na forma. Peço desculpas. Porém, não tenho tempo nem vontade de melhorá-lo. Espero que, apesar de todos os seus defeitos, contribua para o debate e a análise das circunstâncias que atenazam o nosso país.

Da hegemonia social: Alguns apontamentos

Escreve o jurisconsulto senhor Pérez Lema no diário digital xornal.com um atinado artigo intitulado “O PP não é hegemónico” onde explica que, embora goze duma maioria absoluta parlamentar, o Partido Popular não representa a maioria social galega. Não podemos rebater a sua argumentação, pois achamos impecável. Porém, tencionamos, a seguir, relativizar a importância dessas maiorias sociais dentro das democracias burguesas.

MARCO INTERPRETATIVO GERAL

A farsa eleitoral

Primeiro, desde um ponto de vista meramente pragmático, é evidente que enquanto o PP for quem de obter uma maioria absoluta após outra, pouco importará o sentir da “maioria social”, pois uma minoria eleitoral é suficiente para configurar uma maioria parlamentar. As democracias burguesas favorecem as maiorias absolutas, quer, como na Espanha, distorcendo a pura aritmética eleitoral por meio do sistema d’Hont, quer, como em vários outros países europeus ou os EUA, por meio dum sistema a duas voltas. O objectivo é, bem evidentemente, que apenas os partidos guardiães do status quo socioeconómico podam aceder aos governos. As forças com programas mais ou menos transformadores ficam, salvo anomalias graves, completamente excluídas dos poderes executivo e até legislativo e condenadas a uma eterna e estéril oposição. Se eventualmente chegassem ocupar postos de responsabilidade, serão impedidas de agir e queimadas mais rapidamente do que um papel de jornal enrugado. As regras do jogo têm límites estreitos pela esquerda, sendo quase ilimitadas na margem direita.

Um só Deus, três pessoas

O verdadeiro poder num sistema capitalista são as forças económicas (forças vivas, poderes fácticos), das que as forcas políticas são subalternas, embora uma íntima imbricação de inter-relações torne complexa uma análise rigorosa da retro-alimentação entre ambas. O poder judicial fica fora de questão pois, com raras excepções, faz parte dos privilégios herdados das classes dominantes. No que diz ao quarto poder, a imprensa, ela faz parte integrante da rede empresarial do capitalismo e, já que logo, serve unicamente os seus interesses propagandísticos. Um só Deus, três pessoas. Eis a hegemonia que verdadeiramente conta.

A opinião pública

Fica fora do alcance deste artigo uma descrição detalhada dos mecanismos socioeconómicos, psicosociológicos e adaptativos através dos que se atinge o controlo social. Remetemos o leitor interessado para a obra clássica de Noam Chomsky “Manufacturing Consent” ou a ainda mais clássica “Crystallizing Public Opinion” de Edward Bernays, que inspiraria as estratégias de propaganda nazista. Nós particularmente não albergamos nenhuma dúvida de que a “opinião pública”, simplesmente, fabrica-se em massa como qualquer outro bem de consumo. Para além do dito, ao nosso entender, a “opinião pública” não é assim tão importante como nos querem fazer ver. Primeiro, porque, como é bem sabido, construi-se e molda-se. Em segundo lugar, nem é preciso que uma opinião seja verdadeiramente maioritária, normalmente é suficiente com que seja apresentada como tal pelos media.

Passividade

A maior parte dos cidadãos estão demasiado ocupados com os problemas do seu quotidiano para agir contra as decisões políticas. Esta passividade é induzida, entre outros vários mecanismos, com a ideia de que a maioria governamental, avalada pelos votos duma maioria social que supomos concordar com todas e cada uma das acções e omissões desse governo, tem carta branca da sociedade para fazer e desfazer a vontade. O cidadão meio está condicionado para acatar, no nome da democracia, uma, real ou fictícia, tirania das massas.

Emotividade

Numa sociedade de consumo, a propaganda apela mais a factores emotivos e subconscientes do que à racionalidade. A propaganda política não é uma excepção. A relação do cidadão com os partidos políticos é, em geral, semelhante à que têm com a sua equipa de futebol favorita. A maior parte das pessoas são votantes quase incondicionais dum determinado partido. Eles acreditam no que querem acreditar. Há uma minoria que decide o seu voto em função das circunstâncias, já sejam estas reais ou percebidas através da propaganda do momento. Estas pessoas decidem o seu voto normalmente entre os dois partidos maioritários (Coca-Cola vs. Pepsi-Cola) ou bem não vão votar. Há também uma minoria céptica que normalmente não vota. Finalmente há outra minorias muito conscientizadas politicamente que têm um voto muito condicionado ao acordo entre as mensagens recebidas e o seu perfil ideológico/psicológico. A este segmento podem pertencer, mas nem sempre, as minorias chamadas comummente de extrema direita e extrema esquerda, embora o grupo seja mais amplo. Finalmente, teríamos um outro grupo minoritário que votaria em função dos seus interesses, objectivos ou percebidos.

O amo tem mais credibilidade

Como no futebol, a torcida duma determinada equipa é quantitativamente proporcional as probabilidade histórica de esta equipa ganhar o campeonato. Por sua parte, a probabilidade desta equipa ganhar o campionato é aproximadamente proprocional ao orçamento do que disponha. Este orçamento medra em função do número de torcedores e, principalmente, em função do número de campeonatos ganhados (publicidade, sponsors, primas de teledifusão, etc.). Este círculo fechado é assombrosamente semelhante ao que acontece na política. Com a diferencia de que, em política, os donos dos meios de produção têm um interesse directo na vitória dos seus cavalos (partidos políticos, mas também pessoas determinadas dentro destes partidos), já que vão obter réditos directos destes cavalos. Para mais, na sociedade, os donos dos cavalos-partidos são ao mesmo tempo os patrões dos cidadãos e dos meios de comunicação de massas.

O poder aglutina

O poder aglutina e o que se mova não sai na foto. O ser humano mostra uma capacidade de adaptação verdadeiramente impressionaste. Todo poder consolidado cria entorno a si uma coorte estruturada de oportunistas procurando posicionar-se no melhor lugar possível e chegar o mais alto possível. Os oportunistas não criticam, não questionam, apenas acatam e conspiram.

Minorias activas vs. maiorias passivas

Olhando a história retrospectivamente fica clara uma cousa: para os poderosos pode ser mais útil uma minoria activa do que uma maioria passiva. Na verdade, sempre podemos contar com a passividade da maioria. Uma minoria activa sem o apoio do poder pode não ser muito funcional desde o ponto de vista de alcançar uns objectivos concretos. Porém, uma minoria financiada pelo poder e contando com a propaganda favorável dos media pode mover montanhas (ou derrocar um governo democrático, chegados a um caso extremo).

Nos últimos anos vemos como minorias radicais estão a ter um peso político muito superior ao que lhes corresponderia demograficamente. Observamos isto nos países islâmicos e também nos Estados Unidos e na Europa (Polónia, por exemplo) onde, por exemplo, minorias de fanáticos religiosos condicionam as políticas governamentais. Estas minorias são necessárias para os partidos de direita ganharem as eleições. Mas, contrariamente às maiorias silenciosas, as minorias radicais são exigentes e não votam incondicionalmente. Cumpre dar-lhes o que pedem, quer no plano real, quer no simbólico. Também são mais activas na resposta cívica: fazem manifestações, inundam de cartas as caixas de correios dos jornais, ciberactivismo, etc.  Até o Vaticano reparou nisso e da estratégia de tudo vale, a Igreja tudo perdoa, passamos com Ratzinger à reactivação dos sectores radicais emulando os islamistas, os judeus e os evangelistas americanos, todos os quais estavam a medrar, ao contrário que o catolicismo.

Claro que o poder corre o risco de ficar preso destas minorias. Cumpre dominar a arte do malabarismo político para convencer as maiorias passivas de que as concessões as minorias radicais são necessárias e até positivas e, ao mesmo tempo, convencer as minorias radicais de que não se pode fazer mais do que se está a fazer já que as maiorias silenciosas não o tolerariam. O primeiro pincho carneiro costuma ser mais fácil que o segundo.

ANÁLISE DUM CASO CONCRETO: A GALIZA

Na Galiza, quantitativamente, são mais os que estão contra o PP que os que votam PP. Mas antes de falar de hegemonias sociais, cumpre analisar cada um dos vectores expostos com anterioridade para calcular a resultante. Sendo a resultante a hegemonia.

A farsa eleitoral favorece o PP por ser a força maioritária: Divisões provinciais e lei D’Hont.

Um só Deus, três pessoas favorece o PP. Sendo herdeiro directo do franquismo e antes do caciquismo decimonónico, o PP representa o poder “natural” na Galiza. O PP copa quase todas as estruturas clientelares tanto antigas quanto modernas. O PP é o empresariado (poder dos poderes). Dentro desse empresariado, aquele possuidor dos meios de comunicação é particularmente favorável ao PP (ainda não há muito que o Director de La Voz de Galiza presumia de pôr e tirar governos ao seu capricho). Esta simbiose entre partido e amos da impressa faz com que  Opinião pública também favorece o PP. O PP pode mentir, caluniar, roubar, ser ineficaz, fazer o que quiser… A sua versão dos factos vai ser sempre corroborada, divulgada e magnificada pelos media. O amo tem mais credibilidade, portanto, também favorece o PP. Não precisaríamos ir mais longe para ver como, com efeito, o PP é hegemónico na Galiza.

A emotividade também favorece ao PP, cabalo ganhador na Galiza (ganhou eleições e ganhou até guerras). O PP leva desde sempre governado a Galiza que há já uma identificação absoluta entre partido e instituições públicas. O poder aglutina, sem dúvida,  também favorece o PP.

No tema das minorias o PP ganhou por partida dupla. Por uma parte, aglutinou ao seu redor a prática totalidade da direita espanhola. Conservadores, neo-conservadores, nostálgicos do franquismo, nazistas, liberais (os poucos que pode haver na Espanha), católicos de direitas, galeguistas de direitas, oportunistas, etc. Consciente, após de perder as eleições há quatro anos, de que as sua maioria social não garantia aritmeticamente maiorias absolutas, criou toda uma rede de associações ultradireitistas que, com um apoio mediático desproporcionado, souberam sublimar as paranoias vitimistas até o ponto de mobilizar ao máximo e concentrar no PP quase todo o voto “útil” da extrema direita.

Por outra parte, e esta estratégia resultou ainda mais determinante para a obtenção da maioria absoluta, o PP conseguiu desmobilizar completamente as minorias da esquerda que propiciaram a vitória do bipartito havia quatro anos. Os ataques centraram-se em desmotivar o ecologismo, os antigos votantes do PCE e o proletariado com consciência de classe mas não muito ideologizado. Para isto empregou todas as armas que tinha ao seu alcance: contradições intrínsecas da esquerda, erros objectivos do governo, calunias, difamação pessoal, etc. Com a cobertura mediática apropriada era quase impossível não desmobilizar uma porção de votantes da esquerda suficiente para o PP recuperar a maioria absoluta. Em resumo, o PP e os seus batalhões mediáticos afundiram o bipartito desde o flanco esquerdo.

Esta última conclusão dá-lhe a razão ao Sr. Pérez Lema no que diz à hegemonia social, a qual beneficiou, embora muito precariamente, a esquerda. Porém qualitativamente, como vimos de ver, a hegemonia sócio-económica favorece largamente os interesses da direita, o qual explica os resultados históricos e torna muito difícil a possibilidade duma mudança. O cidadão desencantado quem o vai re-encantar?