Aristocracia de palheiro: Na Galiza são submissos os de arriba

Aristocracia de palheiro: Na Galiza são submissos os de arriba

carlos_melhaExtracto da entrevista com Carlos Melha no jornal espanhol El País na que Melha retrata magnificamente os principais sintomas da colonização das classes dirigentes na Galiza (burguesia clientelar, nos termos empregados por John Kenneth Galbraith para definir a relação de submissão das elites latinoamericanas a respeito do capital norteamericano):

P. Se quadra por essa relação com a submissão, a retranca definiu colectivamente os galegos.

R. Sim, somos gente submissa, pero não é submisso o de abaixo, é submisso o de arriba. Quem conquistou Galiza para os outros não foram os de abaixo, foram os de arriba.

R. Como quando dizem que os galegos somos muito listos, pois não. Uns são listos, outros parvos, outros regulares. É a moeda falsa com a que compram a nossa obediência.

P. E quais eram essas forças vivas com as que se inimizou?

R. Pois sendo vicepresidente económico… A minha opinião sobre o empresariado galego era a que era, os bancos, as caixas… já me dirás que mérito fazer obra social com os quartos dos outros. Aristocracia de palheiro.

P. E por que essa “renúncia ao país” das classes dirigentes?

R. Porque são covardes, querem sobreviver. Como sobreviveu a nobreza de palheiro foreira? Pois buscando um amo.

P. Trata-se logo dum defeito de fábrica?

R. A submissão ante o poder é uma constante da pequena história da Galiza. Não se pode negar. Já Afonso II o Casto… Éramos uma gente miserável num recanto miserável, que não entrava dentro da geopolítica espanhola.

P. Mália a sua visão negativa do país, virou nacionalista.

R. Porque é um crime histórico e o único que fez algo foi o nacionalismo. A nação galega identificou-se com o trabalho. E isso não é mau, porque se lemos a história, o agricultor modernizou-se mais que o engenheiro agrónomo. Pero a nobreza não deixou levantar cabeça. As classes de arriba fugiram.

P. Seguimos na mesma?

R. Aparecem esses amantes da liberdade, meu Deus, a conselheira de Sanidade que confunde o seu pensamento com a sua função política. E logo falam de que estamos em Europa. Ainda falta de caralho para sermos europeus.

P. O seu conceito de nacionalismo, neste livro, evita o eixo esquerda-direita.

R. O nacionalista pode ser de direitas ou de esquerdas. O nacionalismo é uma ideia e a esquerda ou a direita, doutrina. Que o nacionalismo, em Galiza, se tem que tingir mais de esquerda? Parece claro. Os dirigentes sempre foram espanholistas.

P. Detecta esse “pensamento turístico”, que denuncia, no novo Governo?

R. Totalmente. Em todos os conselheiros. Por exemplo, o do inquérito do galego, todos os antidemocratas do país pedindo liberdade…