Republica da Galiza no exílio

Republica da Galiza no exílio

Emigração, galeguidade, Galiza exterior, diáspora. Com estas e outras designações igualmente eufemísticas somos colectivamente apelados os galegos e galegas que moramos além das inexistentes fronteiras da “Comunidade Autónoma de Galicia” (CAGa). O Reino da Espanha mantêm ainda quatro territórios sob situação colonial: as cidades marroquinas de Ceuta e Melilha, as Ilhas Canárias e a Galiza. Na Galiza, o colonialismo espanhol tem como consequência que, cada ano, milheiros de jovens galegos vêem-se empurrados a deixar a sua terra, quer por causas económicas, quer por causas politicas, quer por uma mistura das duas, já que não são mutuamente independentes. Mas eu não sou emigrante, nem galego exterior, nem faço parte de galeguidade nem de diáspora nenhumas. Eu sou um exilado. Embora deixei o meu pais por motivos eminentemente profissionais, o clima sociopolítico galego contribuiu também substancialmente, se bem neste caso não tanto para a decisão de marchar, mas sim para a de não voltar.

Desde a lonjura vejo as cousas em perspectiva. Cousas que antes achava “normais”, já não acho. Não acho normal que as autoridades espanholas e as autoridades coloniais espanholas na Galiza, com o objectivo de atrair investimentos estrangeiros, “promovam” a Galiza como a região da Espanha com os salários mais baixos, os despidos mais fáceis e baratos e a massa assalariada mais submissa. Estão orgulhosos da nossa miséria e mansidão! Não acho normal que pessoas que habitualmente fala galego (português) se vejam forçados a falar espanhol para obter e conservar um posto de trabalho. Não acho normal que para aceder a um trabalho no sector público haja que ter cartão do Partido Popular. Não acho normais as ameaças e represálias que sofrem nas universidades as pessoas que querem redigir uma tese doutoral na sua língua. Não acho normal a perseguição policial e criminalização que sofrem as pessoas e colectivos que defendem pacificamente a ideia legitima da soberania popular e/ou nacional. Não acho normal que se ilegalizem partidos políticos e associações e se fechem meios de comunicação. Não acho normal sofrer discriminação por falar a língua dos nossos antepassados num lugar publico. Não acho normal ser humilhado por solicitar ser atendido na minha língua. Não vejo normal ser criminalizado polas minhas ideias. Não acho normal que não seja possível para muitos pais escolarizar os seus filhos em galego. Não acho normal, que por riva de tudo isto, a extrema-direita nacionalista espanhola empreenda agora uma outra cruzada contra nós, fazendo-se passar polas vitimas do conflito. Não acho normal, em fim, que os meios de comunicação coloniais na Galiza se somem de forma entusiasta à campanha de acosso contra a nossa língua e legitimem o seu extermínio assistido.

Em soma, na Galiza a atmosfera socioeconómica e sociopolítica é irrespirável. É por isso que assumo agora com toda naturalidade a minha condição de exilado. Dizia Castelao que o galego não se revolta, simplesmente emigra. Eu revolto-me. Revolto-me desde o exílio. E pergunto-me, se o Dalai Lama é o presidente do governo tibetano no exílio, não deveríamos constituir também os galegos no exílio o nosso governo?