De classe e capital linguístico: Alguns apontamentos

De classe e capital linguístico: Alguns apontamentos

Quisera acrescentar mais um elemento ao artigo do Celso Alvarez Cáccamo no PGL.

Morei (e trabalhei) na França durante pouco mais de dois anos. Entendo agora que não é casual que o pai da sociolinguística seja francês. Eu não percebera verdadeiramente Bourdieu até morar na França. Acho que já morei/trabalhei em oito/sete países (= Estados) e em nenhum deles é a noção de “capital linguístico” (e demais categorias marxistas adaptadas por Bourdieu) tão palpável como é na França.

Todos conhecemos o jacobinismo francês. Todos sabemos do intolerante centralismo em matéria de administração e de língua. Mas, na verdade, a intransigência linguística francesa o que reflecte realmente é uma sociedade profundamente classista em tanta ou maior medida em que reflecte também a ideologia dum jacobinismo republicano. Tanto mais, quanto ambos conceitos não são mutuamente independentes. Sim, pois a Revolução Francesa foi uma revolução burguesa, tardia a respeito das primeiras, as que tomaram a forma de ideologia religiosa, o protestantismo. Revolução que tem como desenlace o relevo violento das classes sociais dominantes. A burguesia impõe a sua supremacia económica e os seus valores. A homogeneidade linguística é um deles. Quem fale um “dialecto” é um traidor à República. Dialecto é qualquer expressão linguística que difira da língua falada pelas camadas cultas da burguesia. Ponto. Falar bretão é punido, falar basco é punido, falar italiano é punido, falar alemão é punido, falar occitano é punido, falar com qualquer sotaque diferente do “standard” é inadmissível e recebe também a correspondente punição socioeconómica (nos primeiros dias da revolução até mais). A diferencia entre língua, dialecto e sotaque é pouco relevante. Há apenas UMA forma correcta de falar, o demais entra dentro do âmbito do pecado.

Se no antigo regime os privilégios das classes dominantes emanavam da consanguinidade, eram herdados com o apelido, na sociedade burguesa emanam do capital. Não apenas do capital monetário e patrimonial. Também o capital linguístico joga um papel importante, por quanto tem de barreira, de muro, social. Pela sua língua os conhecereis. O capital linguístico passa ser um cromossoma importante na genética do privilégio. Não é, pois, surpreendente, que a adaptação social ao novo sistema seja fulminante. Na França, as fronteiras do linguísticamente admissível, são estreitas e bem definidas. É língua, sotaque, gestos, saber estar, saber se conduzir. Eis o muro que separa os “quadros” do resto da massa assalariada. Eis o modelo ideal que cada qual deseja para os seus filhos. Se a mimese desse modelo de língua não garante a ascensão social, sim que é conditio sine qua non. Se não nos converte em quadros, pode quando menos salvar-nos da marginalização. Quem não faça seus os valores da burguesia fica fora de jogo. É assim que em pouco tempo podemos modelar uma sociedade (= mercado) homogénea e maleável.

Precisamente esta “consciência” do valor do capital linguístico é o que se manifesta de forma mais aguda e mais explícita na França do que em qualquer outra sociedade que conheço. Marcado a lume nas mentes das crianças desde o berço, este pavlovianismo linguístico é o factor fundamental que faz que para os franceses resulte quase inconcebível abandonar o seu sotaque, mesmo quando falam línguas estrangeiras. O mesmo, em menor medida, acontece com os Espanhóis. O qual leva-nos já mais perto do caso galego.

Na Espanha, depois da morte de Franco, explicitar um discurso “à francesa”, torna-se politicamente incorrecto. Embora, obviamente, os mecanismos de substituição linguística continuem a operar na Galiza, pois a estrutura socioeconómica, no essencial, fica intacta, o discurso tem de tornar mais “tolerante” pois, durante certo tempo, a maioria social não gosta de ser classificada dentro da categoria de “facha”.  Mas esta ilusão dura pouco. A reorganização politica da direita espanhola leva aparelhada a reelaboração de discursos justificadores mais “modernos” e consoantes com os tempos. Os mesmos sacrifícios humanos que antes eram cometidos no nome de “Dios” e “Patria” (= Espanha) são exigidos hoje no nome da “democracia”, da “libertad”, da “convivencia”,… Resumidamente, a noção de patriotismo puro e duro, substitui-se por uma mais difusa de “civismo”, não menos “patriótico”. Logicamente, quem se resistir a ser imolado em tais altares será enviado, ipso facto, para os infernos de Dante ou, o que é o mesmo, esbulhado de capital simbólico ou lastrado de capital simbólico negativamente conotado.

Nós temos pouca dúvida que do que se trata é apenas de uma renovação, de um lavado de face, do mesmo discurso impositor de sempre. Pois o discurso é justificador da estrutura (logo é “necessário”) e a estrutura pouco tem mudado. O que mudou é que hoje há mais galegos em situação de assumir com naturalidade um tal discurso. Primeiro porque o trauma da amputação das suas raízes vai ficando mais remoto no tempo. Segundo, porque, pelo mero facto de não realizar tarefas manuais, grande parte das classes assalariadas espanholas estão convencidas de fazer parte de uma suposta “classe meia”, que apenas existe se não é em quanto miragem.