Admirável mundo novo: Planeta DA2G

Admirável mundo novo: Planeta DA2G

Mália sermos externos, tivemos acesso estes dias a um documento interno redigido polo líder dum partido politico galego, o único, aliás, com representação parlamentar. O líder analisava esquematicamente as razões da malheira eleitoral que o seu partido vem de sofrer nos recentes comícios regionais na Galiza. Coincidimos o líder e mais nós num único ponto: o partido não soube conectar com a cidadania ou, quando menos, com uma muito significativa porção da cidadania que favorecera esse partido com o seu voto em anteriores comícios mas decidira inibir-se nestes. Porém, a análise que o líder faz é antítese da nossa própria.

Alude o líder em questão a uma nova classe meia urbana que, polos vistos, deu em agromar nas cidades e vilas galegas. Esta classe meia seria bilingue (sic) mas, apesar disso, viveria alheia e de costas viradas à cultura galega (tem que tratar-se de mais um caso do conspícuo bilinguismo harmónico espanhol/castelhano). Devo confessar que tal revelação deixou-me estupefacto, pois, sendo eu mesmo um urbanita galego desde o berço, ignorava a emergência duma tal classe social. Se calhar, o marco interpretativo ultraminoritário que esclerosa as minhas percepções tornou-me cego para o fulminante agromar desta nova casta. Se calhar, estas classes meias empregam subtilíssimas estratégias de camuflagem que os fariam invisíveis perante o meu olhar ultraminoritário.

Nuevas generaciones

No planeta no que eu habito, assisti, com efeito, ao emergir duma nova geração urbana. Nova geração da que faço parte. Somos aqueles cujos pais emigraram de forma maciça dum rural alegadamente inviável para as cidades durante as décadas dos 60 e 70. Somos filhos de operários ex-labregos, dos desertores do arado. Somos desertores do arado em segunda geração (DA2G). Embora as nossas estratégias adaptativas ante um entorno hostil tenham sido diversas — tentarei agrupa-las em três categorias mais adiante — todos os membros da geração DA2G partilhamos umas características comuns, marcadas a lume polas circunstâncias socioeconómicas nas que foi forjada a estrutura do nosso carácter.

A primeira e mais salientável destas características é a de ter sido amamentados na vergonha. Envergonhados dos nossos pais e avós, envergonhados das suas origens rurais e humildes, da sua língua da que fomos deserdados polo nosso próprio bem, do nosso sotaque, do bairro proletário no que crescemos…, passamos grande parte da nossa infância e adolescência tentando apagar qualquer estigma do opróbrio, a botar sal nas nossas raízes, a desenhar uma imagem de nós próprios na qual os nossos pais seriam contáveis de secano chegados recentemente de Valhadolid, a fazer nossos os valores dumas exíguas classes meias precursoras do mesmo auto-ódio. A ocultar, encobrir, tapar, disfarçar, dissimular, esconder, esquecer, olvidar, deslembrar, omitir, desprezar, apagar, apagar, apagar.

Determinismo

Esta operação maciça de amnésia colectiva foi, está a ser, não fica dúvida, estimulada e catalisada polo aparelho de propaganda do reino. Mas, nem era imprescindível, já que tais processos geram indefectivelmente, naturalmente, polo seu próprio movimento inercial, tudo um discurso auto-justificativo que vai sendo tecido progressivamente até resultar num sistema ideológico relativamente robusto e auto-consistente (que agora toma amparo/álibi num deturpado conceito de “liberdade” para sacar  de passeio o franquismo sociológico polas ruas de Compostela adiante). Este discurso, tem que ficar claro, não nasce apenas das cavernas madrilenas, mas é também, na mesma ou maior medida, froito dum processo endógeno, dum determinismo psicológico incontornável.

Os nossos pais e avós adaptaram-se para sobreviver. Essa traumática adaptação contra nós próprios, contra o nosso ser individual e colectivo, tem que gerar por força uma ideologia auto-justificadora. Ideologia auto-justificadora que tem que estar assentada sobre princípios “nobres” (liberdade, democracia, bilinguismo), já que ninguém gosta de ter uma imagem de si próprio na que se veria como um traidor, um covarde, um desleixado.

Classes meias

Todo ser vivo, toda sociedade, todo sistema tende a se perpetuar. De não ser assim teria uma vida tão efémera que nem falaríamos dele e, em muitos casos, nem sequer repararíamos na sua fugaz existência. Um dos grandes trunfos na evolução do sistema capitalista cara a sua perpetuação é a alteração categórica da percepção que a massa assalariada tem de si própria. Cria-se uma divisão artificial entre os operários que realizam tarefas manuais e aqueles que não, que são ascendidos, por arte de ilusionismo, à categoria de “classes meias”. Mas isto acontece apenas no mundo das ideias. Cria-se a ilusão, a miragem, o eufemismo, duma ascensão social que não é real. Com isso racha-se a coesão e a solidariedade dentro da classe trabalhadora, já que uma grande parte da classe assalariada considera-se distinta, melhor, que a outra, com a que deixa de se identificar.

Imaginamos que quando o líder político aludido acima falava de “classes meias” esta a se referir a estes novos “operários de escritório”. Contáveis, secretarias, balconistas que acham que o facto de trabalhar fechados entre quatro muros e morar em horríveis covas de cimento torna-os dalguma maneira superiores aos seus pais e avós, os quais, antes de abandonar o verde polo cinzento, dormiam com as vacas e trabalhavam ao ar livre.

Na Galiza, este processo é muito recente e leva aparelhada canda si a tragédia da morte duma cultura, duma língua. Leva aparelhado o processo inacabado de nacionalização, stricto sensu, dos galegos para sermos convertidos em bons espanhóis. Processo no que a propaganda justificadora e a psicologia da auto-justificação jogam um papel fulcral e que concluirá com a homogeneização total da massa de súbditos da coroa espanhola, para criar um mercado uniforme, composto por cidadãos fechados no monolinguismo e que partilham uns mesmos valores e respondem ao uníssono a uns mesmos estímulos. Eis o verdadeiro significado do processo de nacionalização, que utiliza o hábil álibi da igualdade de direitos e deveres ante a lei para moldar um mercado mais facilmente manipulável e alérgico a qualquer tipo de diversidade, quer individual, quer colectiva.

DA2G

Focaremos a nossa análise nos desertores do arado em segunda geração (DA2G) por duas razões: em primeiro lugar porque somos nós os que estamos a piques de nos converter na geração de mais peso e relevância social e, em relação com isto, porque somos, ou imos ser, os pais dos nenos galegos de hogano; em segundo lugar porque, junto com os DA1G, somos os que padecemos de forma mais aguda e traumática o processo de alienação e aculturização, de desenraizamento, e somos nós os que com mais intensidade levamos no nosso seio as contradições inerentes a sermos galegos no século XXI. Sejamos conscientes ou não, somos protagonistas duma tensão, dum conflito, que vive em cada um de nós. De nós depende em grande medida, já que logo, o que vai ser a Galiza do futuro imediato. Independentemente de qual for a visão das cousas de cada qual, não podemos fugir da nossa responsabilidade.

Como é natural, a relação emocional e a auto-identificação com a língua dos DA3G e DA4G são normalmente muito mais fracas, veja-se nulas, e a sua percepção do conflito, quando existe, apresenta polo geral uma intensidade muito inferior.

Como apontamos acima, achamos conveniente dividir os DA2G em três categorias, embora não bem definidas: duas de índole fundamentalmente ideológica (galeguistas e main stream) e uma terceira (operários) mais bem condicionada pola natureza da sua inserção no sistema económico.

Ultraminoritários

Começaremos pola categoria mais fraca quantitativamente, embora o seu enorme potencial qualitativo fique ainda quase inexplorado (note-se que prescindimos de qualquer tentanção de falsa modéstia). Os galeguistas. Moços e moças, homens e mulheres  que provavelmente passaram os seus mais tenros anos a se negar a si próprios, a rejeitar as suas origens, para depois experimentar um progressivo processo de auto-aceitação, de dignificação. Muitos são neofalantes, outros ainda não. Muitos passaram pola universidade. São numerosos os profissionais qualificados. Há mesmo algum empreendedor. Somos os que decidimos, livremente, que a evolução da sociedade e da cultura galega deve fazer-se a partir do que somos e não da negação do que somos. Os que assumimos a responsabilidade de tentar ser pontes entre passado, presente e futuro. Os que decidimos não renegar mais da língua dos nossos pais e avós. A nós corresponde criar uma nova cultura galega. Uma cultura urbana. Aportar este nosso humilde contributo para a diversidade cultural num mundo globalizado. A nós corresponde sermos o motor de projectos sociais e políticos motivantes e esperançosos. Nossa é a responsabilidade de que não morra a língua, na casa e fora dela (é urgente criar uma cooperativa privada de Galescolas). A nós corresponde implicar a sociedade para aprofundar na democracia e na soberania individual e colectiva. A nós corresponde, humildemente, ser vanguarda.

Operários

São os que não puderam escolher. Aqueles que nem podem viver da falsa ilusão de ter ascendido de classe social. São aqueles que ocupam, grosso modo, o mesmo lugar no sistema de produção que já ocuparam os seus pais. Celebram as vitorias da selecção espanhola de futebol. Passam da política e do sindicalismo. Não estão organizados. Muitos normalmente não votam. São descrentes por natureza, como o são os seus pais e avós. A maioria falam espanhol. Muitos até preferem falar castelhano com  sotaque e calão de delinquentes que viessem de sair de Alcalá-Meco antes de pronunciar uma palavra em galego. Mas não nos enganemos, temos, ai também, muito potencial e muita esperança. Não são poucos os que votaram no seu dia por um velho de barbas e gedelhas que petara com o sapato na sua mesa parlamentar. Não são poucos os que enxergavam ai uma pequeninha centelha de esperança. Não são poucos os que gostariam de que se incomodasse um chisco mais os seus escravizadores. Há mesmo alguns que estariam a desejar organizar-se para defender os seus direitos. Uns poucos já o fizeram.

Main stream

Bom, o quê poderiamos dizer, já sabemos como é a vida. Entre o trabalho, o chefe, a burocracia, dar-se pote e pretender que somos mais que os demais, imitar mimeticamente os feitios da burguesia, as facturas, a hipoteca e os empréstimos que pedimos para comprar cousas que não precisamos e não podemos pagar, não temos muito tempo para ler nem para reflectir sobre as cousas. Muito menos para nos comprometer em andrómenas políticas. Os esquemas interpretativos vêm dados desde a infância e o aparelho de propaganda faz o seu implacável trabalho de nai-ave, predigerindo e regurgitando para que nada escape do seu controlo. Aqui e na China. Os poderosos mandam e nós subsistimos. A vida é curta demais. Mas isso não quer dizer que sejamos parvos ou que não tenhamos valores. A maioria da gente está a prol da fim das guerras, da enfermidade, da miséria e da fome. Sempre e quando não haja que renunciar a nada nem passar muitos trabalhinhos. A maioria da gente gostaria de que os políticos não fossem corruptos, embora votemos por políticos corruptos ou não votemos. A maioria da gente gostaria de que houvesse mais solidariedade, embora não conheçamos os vizinhos da porta de defronte. A maioria da gente gostaria de que houvesse mais liberdade e mais democracia, embora não participemos na vida política. A maioria da gente gostaria de que não morresse a língua, ainda que não ouse fala-la. A maioria da gente não gosta de que se estrague a natureza, embora temem que o ecologismo esteja a pôr em perigo postos de trabalho. A gente tem valores. A gente não é parva. A gente não gosta de ser enganada. Porém, fomos fabricados para sermos consumidores passivos. Eis o nosso rol. Gerar mais-valias para que outros se façam ricos e gastar compulsivamente as migalhas que recebemos para que outros se façam ricos. Reconhecer esta realidade equivaleria a reconhecermo-nos perdedores, infelizes, o pior entre os pecados capitais da religião ultraliberal.

Acção

A única forma de deixar de ser espectadores passivos é agir. A única forma de transformar a sociedade é criar espaços onde a gente possa participar na toma de decisões sobre os assuntos que lhes afectam directamente. Mesmo se não gostarmos do resultado. A liberdade e a soberania só podem agromar da acção, da experiência na acção. A experiência e a acção modelam a percepção que temos de nós próprios, fazem-nos mais seguros e mais dinâmicos.

Ideias

A direita ganhou a batalha da ideologia. De forma dupla. Primeiro a sua ideologia é tão hegemónica que se tornou invisível, uma não-ideologia, a sua ideologia faz já parte do corpus do que chamamos “sentido comum”, a ideologia da direita faz parte da estrutura dos nossos pensamentos, das categorias que empregamos para razoar e das redes “lógicas” que junguem essas categorias. Em segundo lugar, a direita ganhou também a batalha dos valores apropriando-se demagogicamente de tudo quanto estiver conotado positivamente (liberdade, democracia) e demonizando hipocritamente os discrepantes (intolerantes, sectários, insolidários), enviando mediaticamente para o inferno de Dante os que não comungarem com o seu catecismo. Quase não houve resistência. Não há alternativas. Resulta agora que os que trabalham por um mundo mais justo são os maus na sua película mediática.

Nacionalismo?

Temos um exemplo concreto no discurso relativo ao nacionalismo. As coligações no parlamento espanhol entre o PSOE, primeiro, e o PP, depois, com as forças bascas e catalãs, dotaram de certo prestígio social um certo nacionalismo conseguidor, que trazia prosperidade para as suas comunidades autónomas. Este facto propiciou o medre do nacionalismo galego e de diversos movimentos regionalistas noutras comunidades do reino da Espanha. O nacionalismo espanhol reagiu com uma astucia magistral, tecendo um discurso sem fissuras, repetido uma e mil vezes ao dia, que dividia o panorama politico entre nacionalistas (os “periféricos”) e não-nacionalistas (os nacionalistas espanhóis). Neste quadro surrealista, o nacionalismo (periféricos) pertenceria ao mesmo campo semântico que insolidário, sectário, tribal, anti-constitucional, terrorista, fronteira, imposição, em quanto os não-nacionalistas, paradoxalmente também chamados “partidos nacionales”, seriam os defensores da democracia, da liberdade, do universalismo, da constituição (a mesma que alguns deles recusaram no seu momento!). Os factos foram encobertos pola propaganda e a população vacinada.

Nós sabemos que a maior parte do galeguismo professa um nacionalismo meramente estratégico, defensivo, libertador, não-essencialista. A maior parte do denominado (e auto-denominado) nacionalismo galego não é nacionalista no senso estrito que termo possui em filosofia política. É um nacionalismo de circunstâncias. Sabemos também, e sabemo-lo bem, séculos de dolorosa história corroboram e o presente não desmente, que o nacionalismo espanhol é doentissimamente essencialista. Mas ele soube lavar a sua imagem, reciclar-se, disfarçar-se, tergiversar, contorcer os conceitos. O nacionalismo espanhol apresenta-se agora como um movimento cívico não-nacionalista. E nós, o galeguismo, que, desde Castelao, é verdadeiramente um movimento cívico humanista, assumimos as categorias nas que pretendiam fechar-nos. Confiando em que nos favoreceriam. Confiando, se calhar, em que o egoísmo da gente era mais forte do que os valores. Agora temos falangistas de toda la vida na rua a berrar “libertad” contra a “imposición nacionalista” e há mesmo gente boa que acredita.

Propaganda war

Nós, que somos ecologistas, feministas, altermundistas, internacionalistas, nós, que amamos e respeitamos a diversidade, nós, somos os maus da sua película mediática. Os que trabalham para aumentar os privilégios dos poderosos e por uma sociedade mais homogénea e mais manipulável, os responsáveis das guerras e da fome, são agora, admirável mundo novo, os bons e generosos. O mundo do revés.

Em quando estivermos presos nos seus valores, nos seus esquemas interpretativos, nas suas categorias, em quanto não sejamos quem de criar valores, de reapropriarmo-nos dos conceitos, de criar ideologia e divulga-la sem complexos, não havemos passar de simples vítimas da sua propaganda.

Compromisso ético

Mas de nada serve criar valores se não somos coerentes com esses valores. Porque então seriamos tão hipócritas e tão demagogos como são eles. Com a diferença de que nós não dispomos dum monstruoso aparato de propaganda nem dum monstruoso aparato repressivo para “mantener la chusma a raya”. Nós somos só chusma. Mas chusma namorada.