Galiza apartheid

Galiza apartheid

A sociedade galega vem de entregar um cheque em branco ao Partido Popular. Um Partido Popular que não é qualquer Partido Popular. Um Partido Popular liderado polos privilegiados herdeiros do franquismo sociológico que estão a praticar a antropofagia, em plena luz do dia, com os seus próprios liberais em Madri. Um Partido Popular que deixou atrás o pseudo-galeguismo fraguiano para reassumir sem complexos os princípios do Movimiento. Um Partido Popular envolvido em escândalos de corrupção que fariam envergonhar os mesmíssimos capos da camorra napolitana. Um Partido Popular que, empoleirado no nacional-catolicismo e predicando um novo apartheid linguístico, vem de obter uma outra maioria absoluta na Galiza.

Com o 99,41 % dos votos escrutinados, o PSOE perdeu mais de 75 mil votantes. O BNG mais de 45 mil. Assumindo, o qual é muito assumir, que os 23 mil votos que obteve UPyD provinham do PSOE, ainda houve mais de 50 mil votantes socialistas que preferiram ficar na casa. O mesmo pode-se dizer no BNG, o qual, ainda assumindo que parte dos seus votos voltaram a IU e outros foram parar a TEGA ou Os Verdes, ainda teria que justificar umas perdas líquidas de mais de 30 mil votantes (não esqueçamos que o independentismo também perdeu votos). O PP, pola sua banda, perdeu zero votantes. Os mesmos que votaram PP há quase quatro anos, voltaram ser fieis em 2009. A cifra é quase exacta. Magicamente exacta. Status quo.

Não há duvida de que as redes clientelares que o PP e os seus antecessores teceram durante décadas, leia-se séculos, nas nossas paroquias e bairros ficaram intactas, como intacta ficou a sua impecável estrutura eleitoral, disciplinada e trabalhadora. Tão eficiente que os partidos dum governo bicéfalo complexado tentaram, sem muito sucesso, imita-la.

Sim, pois, foi este um governo bipartito que jogou a ser Partido Popular. Jogou e perdeu. Achou que ser PP era questão de marketing politico. E errou. Achou que podia competir com o PP jogando com as cartas do PP e dentro dos límites da ideologia do PP. Estavam enganados. Ganharam zero votos de antigos votantes do PP e perderam, por junto, 125 mil votos de pessoas que ansiavam uma mudança real na Galiza. De nada serviu, nem tão sequer, jogar na ultima vaza o joker do medo ao PP.

O que queriam exactamente esses 125 mil cidadãos e cidadãs? Difícil sabe-lo. Cada qual teria os seus sonhos e as suas esperanças. Mas sabemos o que não queriam. Não queriam mais PP. Não queriam um governo bipartito jogando a ser PP. Um governo supostamente progressista, mas tão corrupto ou quase como o PP. O votante do PP semelha não importar-se com a corrupção e a incompetência, mas, esses 125 mil, parecem sim se importarem. Esses 125 mil e muitos outros miles que votaram no bipartito com uma pudorosa pinça tapando o nariz.

Imagino que a intelligentzia do PSOE e mais a intelligentzia do Bloco, achariam lógico que, sendo a Galiza conservadora, era mais prudente jogar a moderação. A mudança “tranquila”. E bem, a Galiza que votou no PP pode ser conservadora, mas se calhar esses 125 mil desejavam outra cousa, se calhar uma mudança mais palpável na ética e na defesa das classes mais humildes. Em tudo caso, uma outra cousa que, polos vistos, (ainda) não existe.

E agora, que? Toca sofrer em silencio outros dezasseis anos de hemorróides Populares, as quais, tudo o indica, vão ser ainda muito mais doentes que as anteriores (descontando, esperemos, as quatro décadas de ditadura)?

O PSOE, nada. O PSOE tem Madri, tem meios de comunicação, tem capitalismo a esgalha. Sabem que mais cedo ou mais tarde voltarão ao poder, que é do que se trata.

E nós, que? Nós não temos nada. A credibilidade do galeguismo tudo enxugou polo desaguadouro ignominioso das corruptelas de salão. Sem barcos nem honra. Nós não temos Madri, nem meios de comunicação, nem capitalismo a esgalha.

Nós tínhamos apenas a confiança do povo. De uma parte se calhar minoritária, mas significativa, do povo. Esta era toda a nossa riqueza e toda a nossa força. E, agora que foi esbanjada, o que vai acontecer? Vai o BNG voltar à rua do ganchete com Galiza não se Vende ou Nunca Mais, assim, como se nada?

Cumpre reorganizarmo-nos e cumpre repensarmos as estratégias. Não vejo claro neste momento quais possam ser as estratégias a seguir a nível politico. Mas fica claro que há várias lições a apreender:

Uma, a Galiza pode ser, na sua maioria, conservadora e corrupta, mas a maior parte dos votantes galeguistas querem outra Galiza. Ergo, essa outra Galiza também existe e merece respeito.

Duas, a força galeguista maioritária fracassou ao tentar seduzir os votantes do PP levando a cabo as politicas do PP e com a (carência de) ética característica do PP, a expensas da sua própria base social.

Três, a força galeguista maioritária fracassou tentando seduzir o capitalismo galego. Confiemos nas nossas próprias forças e deixemos que sejam outros os que pactuem com o dianho, quando as cousas estiverem maduras para o dianho querer pactuar.

Quatro, a força galeguista maioritária fracassou ao consagrar umas relações clientelares com os médios de comunicação, seguindo ao pé da letra as fórmulas do Partido Popular. Os médios restaram fieis a si próprios, parte integrante e fulcral do capitalismo, e fizeram, nomeadamente La Voz de Galicia, a campanha de acosso e derrubo do BNG mais suja e caluniosa da que tenhamos memória (e isso sugando milhões do erário publico). Isso sim, de forma inteligentíssima, atacando o Bloco desde as esquerda, conseguiram o objectivo desejado: que os votantes ficassem na casa. A mensagem desmobilizadora era clara: todos son iguales.

Cinco, a força hegemónica dentro do BNG purgou, purgou e purgou, achando que se tinha o poder não precisava já da sua base social mais crítica.

Seis, as forças soberanistas de esquerdas situadas fora do BNG são incapazes de conectar com a sociedade.

Sete, cumpre apreender quem são os nossos amigos e quem os nossos inimigos. Já está bem de liortas pueris e de guerras de rãs contra ratos por ridículas cotas de poder e protagonismo.

Oito, à margem da futura configuração de partidos políticos dentro do galeguismo, cumpre estarmos todos unidos e solidários contra o regime de apartheid que se avizinha.

Nove, urge uma regeneração ética do galeguismo. Mais coerência e menos marketing. O galeguismo não se vende.

Dez, confiemos em nós. Confiemos na vitória dos bons e generosos. Loitemos com honestidade e mirando os olhos do inimigo e, se tivermos que perder, façamo-lo com dignidade.

Onze, achegemo-nos a sociedade. Escoitemos com atenção e humildade. Menos siglas e menos bandeiras. Ponhamos de parte apriorismos ideológicos e sectarismos e trabalhemos para ajudar a gente a solucionar os seus problemas reais.

Doze, democracia participativa. A soberania e a liberdade constroem-se no dia a dia. Participemos e façamos participar os cidadãos e cidadãs na toma de decisões.

Treze, compromisso, implicação, trabalho, acção.