O “jo ta ke” de Aurêlia

OS MITOS NACIONALISTAS

O romanticismo nacionalista cria mitos. Os mitos são fascinantes, se calhar até necessários. O problema vem quanto acreditamos nos nossos próprios mitos e fazemos deles o marco interpretativo na análise da realidade, pois é esse um bilhete sem retorno cara o desnortamento mais absoluto.

De entre os mitos criados polo nacionalismo galego, há dous que continuam plenamente vigentes e que mesmo foram assumidos por amplas camadas da sociedade, além da própria paróquia nacionalista:

Primeiramente temos o mito, que nós achamos particularmente engraçado, da resistência heroica dos paisanos galegos, os quais, qual Asterix e Obelix, durante mais de cinco séculos, foram reluctantes a empregar a língua do Império Pequeno.  Não imos perder o tempo a desconstruir esta lenda urbana (nunca melhor dito, pois para inventar tal andrómena  cumpre ser um urbanita que não entende nada da estrutura socioeconómica do rural galego antes da chegada da revolução industrial à Galiza por volta dos 1950s ou 1960s, you know nothing, Jon Snow).

O segundo mito, derivado do primeiro, é o da língua proletária do meu povo, que costuma ser formulado também através do pleonasmo a fala é o que se fala. Moi bien, moi bien, moi bien, que diria o Farruco. Já neste mito imo-nos deter uns instantes.

Um terceiro mito, assumido polo nacionalismo galego, mas que não esperta um consenso social tão amplo, é o da “normalização linguística”. A ele referiremo-nos brevemente nas conclusões.

A REVOLUÇÃO FRANCESA E O NASCIMENTO DA NAÇÃO

Eu aprendi francês sem estudar muito, basicamente lendo livros. Comecei por livros supostamente facilinhos, como Le Petit Prince (Antoine de Saint-Exupéry, 1943) e fui aumentando progressivamente a dificuldade. O último livro que li antes de ir morar para a França foi o pré e pró-revolucionário Les Liaisons Dangereuses (Pierre Choderlos de Laclos, 1782). Falando com um amigo francês deste meu percurso literário, ele comentou “Terás reparado no pouco que mudou a língua francesa desde Laclos até hoje. Não é abraiante?”. Pois não, não tinha reparado. Fiquei a cavilar um instante, e disse “bom, se calhar é assim para o francês culto, para o francês académico, mas a língua de Laclos pouco tem a ver com o francês falado hoje na rua”. Fitou para mim como quem olha um pobre retardado e acrescentou um sarcástico “Depende que rua…”.

A conversa continuará mais adiante, mas permitam-nos que nos detenhamos um momento neste ponto. Depende que rua. Sim, porque na altura eu morava no quartier gare e, como todos os que tenham visitado a França saberão, o bairro da estação dos comboios costuma ser nas cidades francesas um bairro semi-marginal onde mora normalmente a população imigrante assim como aqueles franceses de souche que não se podem permitir nada melhor. O meu amigo morava  na Praça da Catedral. Com efeito, o francês que se falava na sua rua rua não era o francês que se falava na minha rua, embora ambos morávamos na mesma vila e a distância que separava os nossos apartamentos era inferior aos mil metros. O francês da sua rua era mais próximo ao de Choderlos de Laclos do que o francês da minha rua, como pude comprovar quando, pouco mais tarde, fui morar nessa mesma praça. Porém, era ainda bastante distinto. E mesmo havia outros bairros, mália ser uma cidade pequena, onde o que se falava era ainda bastante mais distinto.

Mas a diversidade das falas francesas não acabava ai. A namorada desde meu amigo era occitana, duma vila pequena não muito longe de Tolosa. Quando se conheceram, sendo ambos pessoas com instrução universitária, ambos achavam que falavam um francês absolutamente standard. Porém, os problemas de inter-compreensão mútua não eram nada infrequentes.  E não falo dos típicos problemas de parelha, mas daqueles mais prosaicos que têm a ver com o sotaque, o léxico e a fraseologia. Ambos dominavam à perfeição o registo culto da sua (única) língua. Porém, na fala coloquial, espontânea, descontraída, afloravam as diferenças. E isso que estamos a falar da República Francesa, o primeiro país que fez da língua (da homogeneização e uniformização do standard linguístico) uma questão nacional e até, nos primeiros momentos da Revolução, uma questão alta traição, de vida ou morte.

Mas, feito este inciso e já que falamos de construção nacional, retomemos o fio da conversa inicial. Porque depois do “depende que rua”, o diálogo cobrou uma perspectiva histórica. “Sabias, disse eu, quantas pessoas no Reino da França falavam a língua de Choderlos de Laclos antes da Revolução?”. O meu amigo não tinha ideia. 14 %. Incredulidade total.

O francês, tal e como o conhecemos hoje, o francês direito, mais ou menos inteligível para um cidadão moderno, era uma língua falada arredor da corte do Rei. Os restantes súbditos do Reino falavam outras línguas e dialetos. Na idade media e no antigo regime o conceito de nação não significava o que significa hoje e, portanto, não existia o conceito de língua nacional. Havia, sim, uma língua administrativa, que era a língua da corte e que as camadas cultas e poderosas da sociedade se esforçavam por falar da maneira mais parecida possível à forma de falar da corte. O conceito de nação não tinha importância porque o garante da unidade dos reinos era a fidelidade ao monarca. O reino era o conjunto de súbditos dum monarca e o território por eles ocupado. Que existisse ou não uma língua comum, uma cultura partilhada, uma história ou uma origem étnica comuns não era assim tão importante.

O conceito de “nação” vira importante quando a burguesia decapita o rei, porque, morto o rei, qual é o garante da unidade do reino? Por outras palavras, o conceito de nação tal e como o conhecemos hoje é um invento burguês, uma necessidade do estado burguês. Quando a burguesia suplanta a aristocracia como classe dominante começa o processo de “construção nacional”, isto é de criação duns referentes identitários comuns e homogéneos para toda a população do Estado. Assim, falar Basco, Bretão ou Alemão na França de Robespierre podia ser considerado “traição” e custar-lhe a cabeça ao falante.

A LÍNGUA NACIONAL

Com a nação nasce pois o conceito de “língua nacional”, elaborada normalmente a partir da língua culta falada polos burgueses, que era por sua vez a mesma língua falada na corte. Porém, para ser imposta ao conjunto da população, é precisa a elaboração dum standard, de dicionários, de gramáticas que codifiquem a língua nacional e prescrevam o aceitável. Esse “standard” é sempre pois, em maior ou menor medida, um constructo “artificial” que nasce da vontade da burguesia de ter nação e, portanto, é sempre imposto desde acima para abaixo.

Para o impor não é precisa a guilhotina, embora foi muito útil nos primeiros momentos. O que impõe a língua é a estrutura socioeconómica e os valores dela emanados. Mais em detalhe, o domínio do código linguístico prescrito constitui uma parte fundamental do “capital linguístico” e conforma um dos elementos que garantem a transmissão e perpetuação do privilégio numa sociedade de classes.

A ESTRUTURA, IDIOTA, É A ESTRUTURA

Já no caso galego, a sociedade rural tradicional estava composta de pequenos proprietários que viviam em células relativamente auto-suficientes (as paróquias ou freguesias) organizadas em redes das que os nodos principais eram as feiras. Nessa sociedade a mudança de língua era desnecessária. Isto não quer dizer que a influência do castelão no galego não fosse maciça e continuada, que era. Mas a convergência do galego com o castelão era relativamente lenta e poucos eram os que mudavam de vez de língua. Para as relações com a administração do estado estavam os caciques, que eram bilingues. Já a nível de valores, nesta sociedade não existia a miragem da ascensão social, como existe no mundo urbano industrializado. No antigo regime, se os paisanos pagavam os impostos e enviavam os filhos à guerra, ninguém se importava com que língua falavam entre eles. Relativamente ao seu domínio do castelão, era suficiente com que entendessem as ordens que recebiam.

Nas regiões não industrializadas como a Galiza, onde quase toda a população vivia no rural e não tinha apenas acesso à educação regrada nem a quaisquer médios de comunicação, embora a administração espanhola comece a importar o modelo provincial do jacobinismo francês já no XIX, o projeto nacionalizador espanhol não se desenvolve em toda a sua amplidão até o século XX. A industrialização da Galiza começa com o franquismo nos anos 50 e alcança o seu zénite com o “desarrollismo” dos 60 e 70. Quando os falangistas afirmam que Franco industrializou Espanha, não lhes falta razão. Só que é uma cousa que os nacionalistas galegos não podem admitir porque eles ainda vivem nesses ultrapassados valores decimonónicos que identificam industrialização e progresso.

Mas, voltando ao tema da língua, é a conversão dos labregos em assalariados o que tem como consequência a mudança de língua. Evidentemente a repressão política do projeto nacionalizador espanhol também joga um papel importante. Mas o fundamental é a estrutura económica. Ao longo do século XX convence-se aos labregos galegos da inviabilidade do seu modo de vida (e não apenas da inviabilidade como também da “indesejabilidade”).  Não apenas são “convencidos”, se não que já durante o franquismo desenvolvem-se políticas que visam, de maneira agachada e insidiosa,  forçá-los a emigrar para as cidades, pois sem essa migração maciça não pode haver industrialização. Já nas cidades, estes desertores do arado devem procurar trabalho e virar assalariados. É nessa altura quando “decidem” não transmitir a língua galega aos filhos para que estes tenham mais oportunidades. Na escala de valores do industrialismo burguês, o mais baixo é o labrego, a seguir, o segundo mais baixo é o operário manual, seguido polo funcionário de balcão ou escritório, etc. O castelhano seria a chave que abre a porta dessa falsa ascensão social ou, no pior dos casos, quando menos evita em certa medida a burla e a discriminação, que já não é pouco.

Como vemos, neste processo não existe qualquer resistência nem heroicidade se não que a mudança ou a preservação da língua vêm ditados de maneira determinista pola estrutura económica. Se quisermos ver uma mostra de heroicidade, esta não se acharia no campo linguístico e sim na resistência a deixar a terra para ir trabalhar à cidade como gado escravo. Mais uma vez, uma interpretação cabal deste processo choca frontalmente com os mitos nacionalistas, já que a identificação que o nacionalismo galego faz entre industrialismo e progresso, não permite aos galeguistas  admitir (como sim fazem os nacionalistas espanhóis) que a preservação do galego foi devida simplesmente às específicas características do rural galego (que eles, e nisso coincidem galeguistas e espanholistas, identificam com “atraso”).

CONCLUSÕES

1.- O conceito de língua, tal e como o concebemos hoje, é dificilmente dissociável do conceito de “nação” e de “língua nacional” e nasce da necessidade que as revoluções burguesas, e nomeadamente a Revolução Francesa, têm de construir uma nação homogénea que legitime a hegemonia da nova classe dominante sobre os antigos súbditos reais.

2.- As línguas modernas, concebidas como standards cultos,  são todas constructos “artificiais” impostas polas classes dominantes. Estes construtos artificiais não representam o conjunto de variantes da língua (ou falas), se não que reflectem um “consenso” dentro da variante falada pola classe dominante que as impõe ao resto da população. Se a fala é o que se fala, a língua não é o que se fala, é o que se deve falar. Por outras palavras, se na linguística e na filologia abstratas a língua pode ser um marco interpretativo descriptivo, nas sociedades classistas a língua é sempre prescriptiva, não descriptiva.

3.- Quando alguém nos diz que a “fala é o que se fala” ou que a língua deve refletir as falas populares, provavelmente o que quer dizer é que o standard culto deveria ser o que fala ele e a sua classe. Estamos, portanto, ante um intuito de legitimação duma nova elite que se quer auto-atribuir tudo o capital linguístico (normalmente no decurso dum processo de ruptura com uma outra classe hegemónica como pode ser o caso das elites brasileiras a respeito das portuguesas ou, no caso galego, ex novo).

4.- A tendência “natural” das falas populares na ausência dum padrão comum imposto (ou idealmente auto-imposto) é a diversidade e a disgregação. Por exemplo, o dogma de que o standard linguístico deve reflectir estrictamente as falas populares leva ao estabelecimento do “galego-asturiano” ou “asturiano occidental” como língua distinta da falada na Galiza quadriprovincial. Havendo vontade política, o mesmo poderia fazer-se com as falas de Ourense a respeito das falas de Bergantinhos ou do Morraço, etc.

5.- Os padrões e standards linguísticos têm (mália o seu carácter arbitrário, artificial e imposto) a virtude de facilitar a comunicação entre utentes de distintas variedades duma língua. Isto não quer dizer que não devamos ter o mais escrupuloso respeito polas pessoas que não dominam os padrões cultos da língua ou que, simplesmente, preferem empregar a variedade com a que se acham mais familiarizados. O standard pode-se ver, desde uma focagem não classista, como uma variedade “franca”.

Em definitiva, o galeguismo deve decidir se quer língua ou se não a quer. Deve ser consciente do que significa língua dentro duma sociedade burguesa de classes e deve ser consciente de que, nesse contexto, “normalização” é equivalente a “construção nacional” (com tudo o que isso implica).

Evidentemente, desde uma perspectiva libertária, podemos desprezar os conceitos de “nação” e “Estado” e portanto prescindir inteiramente da elaboração duma “língua nacional”. Isto é perfeitamente aceitável e coerente. O que se passa é que, no marco dum “estado-nação” isto conduz inexoravelmente à morte da língua (neste caso das falas, já que renunciaríamos consciente e explicitamente à construção da língua). Isto é forçosamente assim porque nós podemos renunciar a ter língua, mas o Reino da Espanha não vai renunciar. O Reino da Espanha vai continuar com o processo não concluído de construção da nação espanhola, com o seu corolário de homogeneização e uniformização cultural, linguística e de valores. Porque isso é precisamente o que significa “normalizar” sob a óptica do estado-nação burguês. Sendo assim, a carência duma variedade franca galega só pode significar que a língua franca seja o espanhol.

Se, pola contra, decidimos ter língua, aqui e hoje, os galegos temos duas opções: elaborá-la desde uma focagem regional em base as falas da Galiza quadriprovincial ou elaborá-la desde uma focagem internacional em base a essas falas mas também às outras línguas nacionais já existentes dentro do nosso sistema linguístico galaico-português. Em ambos casos seria um constructo artificial elaborado polas elites, pois isso é, hoje, por definição, uma língua. Seja como for, qualquer intuito real para “normalizar” o galego vai chocar frontalmente com o processo, em curso desde há séculos, da “normalização” da língua espanhola (o qual, ainda que não se defina como tal, havê-lo há-o, e, de facto, é o único processo sério de normalização linguística que existe hoje na Galiza).

Um último apontamento, um bocadinho descontextualizado. Parafraseando o personagem de Debbie Allen na série de televisão Fame, se queremos ter língua, a língua custa. Aprender galego é difícil. Tanto quanto aprender qualquer outra língua.  Se realmente queremos língua, temos de estar dispostos a fazer o esforço. Mais uma vez, o modelo do “gallego facilito” que não venderam até agora não é mais do que uma miragem que leva implícita uma concepção do galego como dialecto regional espanhol. Por outras palavras, apenas poderemos ter língua se os critérios de correcção são tão estrictos quanto os de qualquer outra língua.

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