O Acordo Ortográfico e a direita conservadora portuguesa
Sou dos que acham que o Acordo Ortográfico (AO) é boa coisa. Não necessariamente este Acordo, mas um acordo. Obviamente, modificar qualquer convenção amplamente adotada durante décadas vai criar muitos transtornos a curto termo. Porém, para mim é claro que as vantagens de “unificar” a língua a longo prazo vão compensar com acréscimo estes inconvenientes. Não vou fornecer argumentos a este respeito, pois são eles, acho, bem conhecidos e evidentes.
Contribuir para unificar a língua pode não ser imprescindível, mas sim muito conveniente.
Fonética versus etimologia
Sou a favor do acordo, mas não dos critérios linguísticos empregues para homogeneizar a ortografia da nossa língua. Grosso modo, foram estes critérios foneticistas.
Penso que é um erro tentar unificar uma língua diversa e internacional em base a critérios fonéticos. A fonética, junto com e em maior medida do que, o léxico e a fraseologia, costuma ser precisamente uma das caraterísticas mais divergentes de qualquer língua. Até dentro dum mesmo país ou região, e apesar das pressões uniformizadoras exercidas pelos estados-nação, observamos normalmente uma grande diversidade de pronúncias. Nisto o galego-português fica longe de ser uma exceção e apresenta, bem pelo contrário, as mesmas tendências que, por exemplo, o inglês, o francês, o alemão, o espanhol, etc.
O que unifica a língua é precisamente a etimologia. Bons exemplos do que digo são precisamente o inglês e o francês. Particularmente, neste último caso e desde o ponto de vista do latim, a fonética francesa difere completamente da escrita. Mas é precisamente essa escrita etimológica o que confere unidade à língua e permite afirmarmos que um suíço, um belga, um quebequês, um occitano e um parisiense falam a mesma língua. Porém, e sempre desde a perspetiva do latim, nenhum deles pronúncia como escreve.
É por isso que para unificar de forma eficaz a língua galego-portuguesa, teria sido mais conveniente, não apenas conservar os cultismos já existentes, mas ainda ré-etimologizar a língua em base ao latim e ao grego. A língua portuguesa deveria ser, quando menos, tão etimológica quanto são o francês ou o inglês pois é precisamente a etimologia o que melhor pode garantir a unidade dentro da diversidade.
Acordo político
Além de qualquer fetichismo linguístico, resulta evidente que um acordo ortográfico internacional é um acordo político e não linguístico. Um tal acordo vai refletir irremediavelmente o equilíbrio de poderes entre as partes. Por isso no AO de 1990 prevaleceram fundamentalmente os critérios brasileiros, em detrimento dos portugueses.
Porém, foi tão difícil chegar a este acordo e estão a ser tantos os empecilhos para a sua aplicação, que eu não posso se não fazer um esforço para aderir a este acordo, com o qual não comungo desde o ponto de vista linguístico mas que acho muito necessário e conveniente desde o político (leia-se económico).
Para além das possíveis repercussões económicas do acordo, o que é claro é a importância simbólica do mesmo, pois testemunha a vontade da unidade, a vontade de termos língua, e a vontade de construção duma verdadeira comunidade galegófona (ou lusófona, que diriam alguns).
Se no caso da francofonia ou da hispanofonia, são as antigas metrópoles coloniais, a meio das suas respetivas academias, as que impõem os seus critérios sobre os demais países, não deixa de ser interessante e significativo que no universo galegófono tenha havido longas reuniões e genuínas discussões entre todas as partes implicadas (menos a Galiza, que foi oficialmente auto-excluída) antes do acordo ser finalmente alcançado.
Os detratores do acordo
Os principais detratores do Acordo acham-se tipicamente entre as fileiras da direita conservadora portuguesa.
As justificações declaradas destes detratores baseia-se primordialmente na inutilidade do acordo. Para eles, o AO era desnecessário e vai fornecer mais problemas do que vantagens reais. Aduzem que é inútil a unidade ortográfica não havendo unidade léxica, pelo que vai ser necessário continuar a ter duplas edições de qualquer publicação, uma para o Brasil e outra para o resto (embora as ruas da África cada vez falem mais à brasileira e menos à portuguesa).
Na verdade, as diferenças léxicas não suporiam um grande obstáculo sempre que houver um intercâmbio cultural intenso entre os diferentes países da galeguia ou lusofonia. Assim, por exemplo, a audiência portuguesa teve certas dificuldades para perceber a língua quando começaram a chegar as telenovelas brasileiras na década dos 80. Hoje essa dificuldade é quase nula. A Wikipédia portuguesa é outro excelente exemplo. Graças ao AO pode existir uma única Wikipédia portuguesa unificada e coerente, evitando a duplicidade, o qual significa também um maior número de entradas e uma maior presença da língua na Internet. No que diz à edição em papel, é quase sempre possível empregar glossários que facilitem a intercompreensão mútua.
Desde o ponto de vista linguístico, os críticos com o acordo laiam-se pela perda dos grupos consonânticos cultos como “ct” ou “pt”. Ironicamente, estes grupos já não são pronunciados nem no Brasil nem em Portugal, sendo apenas os galegos os únicos que os pronunciamos. De facto, é só na Galiza onde a perda destes grupos pode ter qualquer efeito prático (para além do fetichismo linguístico antes apontado). Por exemplo, com o novo acordo, “tecto” passa a ser “teto”, o qual para os galegos resulta bastante engraçado pois aqui “tetos” são apenas os das vacas e outros animais. Na Galiza, o latim “tectum” sofreu a evolução lógica do romance ibérico ocidental (ou romance galaico) para dar “teito”. O cultismo português “tecto” permitia diferenciar o elemento arquitetónico do úbere, para além de viabilizar as três possíveis pronúncias (a culta “tecto”, a evoluída “teito” e a deturpada “teto”). A grafia “teto” torna inviáveis as outras pronúncias. É, pois, lógico que neste ponto coincida com os críticos. Embora eu, como apontei acima, iria ainda mais longe e proporia um modelo de língua o mais etimológica possível e/ou conveniente.
Entre o fetichismo e o chauvinismo
Mas, a pouco que analisemos o discurso dos críticos com o acordo ortográfico, observaremos que as suas motivações reais são duas:
1.- A primeira é esse fetichismo linguístico ao que fazíamos referência. Para eles, português direito é apenas o que aprenderam na escola. Sendo, portanto, o português do Brasil uma forma abastardada do verdadeiro português (esse galaico-mozárabe de Lisboa infestado de castelanismos, galicismos e anglicismos que praticam as elites portuguesas). Por isso, estes críticos, não é que não queiram este acordo, é que não querem nenhum acordo. São isolacionistas portugueses que querem conservar impoluta a pureza da língua tal e como falada na escola primária pela sua professora Josefina, com a qual ainda têm sonhos eróticos inconfessáveis. Se por eles for, para não poluir mais ainda a sagrada língua, os filmes e as séries brasileiras deveriam ser dobrados para o mercado português. São também os mesmos que acham que Saramago escrevia em portunhol (não é piada). E se o brasileiro os indigna, o galego dá-lhes arrepios.
2.- A segunda é uma sorte de nacionalismo português chauvinista e vazio. Acham estes críticos que o acordo ortográfico foi uma baixada de calças dos académicos e políticos portugueses frente à pujança demográfica, económica e diplomática brasileira. O seu ferido orgulho não pode aceitar que seja a ex-colónia, e não a professora Josefina, quem dite agora as normas gramaticais da língua de Camões.
Patriotismo seletivo
O mais engraçado desde patriotismo da direita conservadora portuguesa é que semelharia que baixar as calças perante a Alemanha e a Espanha é mais digno do que fazê-lo perante o Brasil. Sim, porque uma das coisas que mais admira das elites portuguesas é a sua capacidade para defender com mais afinco os interesses da Espanha do que os interesses do próprio povo português. Um exemplo é o deputado europeu Vasco Graça Moura, um dos mais férreos detratores dos acordo ortográfico, o qual denunciava num hilariante e disparatado relatório (não demandado) a suposta “imposição” do galego-português na Galiza em detrimento do castelhano. Com paladinos do português como este, quem precisa inimigos?
E não se trata dum caso isolado. Será se calhar porque a chamada “porta giratória” espanhola funciona muito bem para os ex-ministros portugueses. Muitos dos quais são hoje endinheirados membros dos conselhos de administração de grandes empresas espanholas ou de empresas transnacionais que têm as sua filial ibérica em Madrid. Mais uma vez, com patriotas assim, quem precisa vendidos?
Os tempos mudam, as elites portuguesas, não. Mas bom, se calhar o dia no que o Brasil decida investir a sério em Portugal (como está a fazer Angola) e que exista uma porta giratória brasileira para ex-ministros portugueses, se calhar, esse dia essas mesmas elites portuguesas que hoje o denigram defenderão o Acordo Ortográfico.
Pingback: O Acordo ortográfico e a Dereita conservadora portuguesa
Não vamos publicar comentários que contenham insultos. Debatam de maneira civilizada ou fiquem calados.
Bom, o certo é que libertados de paixões o debate é mui interessante. Deve haver ũa norma única, devem existir organismos reguladores? Eu acho que nom. As línguas (todas as ocidentais) medrárom e tocárom os ceus literários durante séculos sem qualquer organismo regulador, nem sequer ũa ortografia escrita “oficial” (certo que por vezes a norma do rei e da corte vinha a ser esta norma, mas isto nom acontecia nem co alemâm nem co toscano-italiano, nem aconteceu co neerlandês, etc.). O tema de regular (*politicamente*) as normas está por ver que seja democrático (que nom o é, o argumento é realmente esvaradiço: a norma é cousa dos “técnicos”, a qual cousa é que me lembra isto?). Obviamente, pode-se argumentar que sem soberania política ũa língua tem difícil regularmentar-se dum jeito distribuido e horizontal. Mui possivelmente. Mas nom é o caso do galego-português (polo menos, fóra da Galiza).
Baixando já ao assunto do AO, a razom de que haja duas (três, cinco) normas é totalmente política, como foi política (errada no meu ver, a história tem mais erros que acertos, se é que dizer “erros” ou “acertos” tem qualquer sentido, já que falamos de humanas vontades ultrapassadas pola realidade) a mudança histórica do pseudo-foneticismo medieval (justificável na altura pola falta de referentes, suponho) a um cultismo barroco intentando reintroduzir elementos latinizantes, algo comum a todas as línguas de corte ou Estado. Desfeito o Império Português na parte americana, o Brasil outorgou-se a sua própria ortografia deliberadamente diferente da portuguesa. Realmente tem sentido agora ir para atrás? Porque nom mais para atrás ainda? Ah, porque há que ser realistas. Pois, quando convém apela-se ao povo, nom invocamos os “técnicos”. Curiosa dicotomia.
O AO é puramente económico e político: procura estabelecer o controle global da língua em Brasil (com 200 anos de retraso, igual que quando a monarquia portuguesa estabeleceu-se no Rio), porque obviamente o peso de Brasil nom se pode contrapôr co do resto da Lusofonia. Todo isto acabará saindo para fóra e é merda bastante para cheirar todo, e afinal nem imos ter um AO, nem vai haver ũa relaçom normalizada, nem nada de nada. Como apontei ut supra (ou devandito, melhor devanescrito ficou), as humanas vontades luitam contra a realidade.
De momento os anti-AO estâm politizados num nível óbvio, de irem para adiante o seu rejeitamento, esta politizaçom irá da mão (em ambas as partes do Atlântico). Quando fique tamém óbvio para os interesses portugueses de que o AO em realidade é um cavalo de Tróia dos interesses do mercado editorial brasileiro, o resentimento vai ser considerável, arrastando muitos jeitos de ver as cousas.
Leia-se: http://espectivas.wordpress.com/2013/01/07/o-partido-comunista-portugues-e-da-direita-conservadora/
E, já agora, deixem Portugal e a sua língua fora dos vossos nacionalismos independentistas. Façam-no dentro de portas, sem misturar alhos com bugalhos. E fazer equivaler lusofonia (algo já de si um pouco vago e nebuloso na prática) a galeguia (?!), é, no mínimo, ridículo.
Caro Ricardo Horta,
O primeiro em sugerir o termo “galeguia” aplicado à “lusofonia” não foi um galego. Foi o escritor angolano Pepetela:
http://www.agal-gz.org/modules.php?name=News&file=article&sid=3622
E faz muito sentido porque a língua galego-portuguesa é o romance ibérico falado pelos galaicos e não pelos lusitanos. Os lusitanos não têm nada a ver com a gestação da língua. Portanto, é o termo “lusofonia” o que é ridículo.
Mais uma cousa. O seu artigo tem várias falácias. Já que me atribui insultos como “idiota” que eu nunca escrevi. O senhor é um mentiroso (ou mentireiro, como dizemos nós).
Por último, discutir assuntos relacionados com a língua portuguesa, nada tem a ver com o independentismo. A língua também é nossa e temos direito a ter e manifestar a nossa opinião (até se for errada).
Lembro-lhe ao senhor que se o galego Afonso Henriques e os seus exércitos galegos não tivessem conquistado os territórios que hoje fazem parte de Portugal, o senhor estaria agora a falar árabe ou algum dialeto mozárabe.
Koroshitchy,
Em primeiro lugar, o artigo não é meu, nem tenho qualquer relação com o blogue, apenas o achei certeiro, daí a partilha aqui.
Em segundo lugar, nem que tivesse sido Saramago ou Pessoa a inventar o termo “galeguia”: simplesmente, é ridículo. E não me viu defender o termo “lusofonia”, muito pelo contrário.
Neste caso, a discussão em torno da língua portuguesa pela vossa parte tem muito nacionalismo e independentismo à mistura. É lamentável utilizar um idioma estrangeiro (o português), para lutas internas (por muito justas que sejam).
Por último, estou muito ciente do galaico-português e da relação cultural/de amizade/fraternidade entre Portugal (mais especificamente o Norte) e a Galiza. E prezo-a. No entanto, neste assunto, a “colherada” galega não é legítima e é nociva.
Já agora, qual seria o mal de falar árabe ou algum dialecto moçárabe?
PS: O senhor não escreve português, escreve galego com apontamentos de português.
Precisamente Capucho !
Mas erradicarêmos essa Doença , êsse Cancro terminal (“AO”) da Língua de Portugal .
O Brasil que assuma o Brasileiro e siga o seu caminho !
A Galiza que faça o mêsmo !
“lusofonia” ???!!! Não sei o que é …Não existe .Existe sim uma TENTATIVA votada ao DESAIRE , um neo-colonialismo Brasileiro a que chamo de
“brasilofonia” .
&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&
Koroshitchy , tu é que Insultaste Portugal e os Portuguêses com o que escrevêste !!!
Portugal e os Portuguêses têm Tôdo o Direito de Defendêrem a SUA Língua !
A Matriz do Português é Portugal !
« A Palavra É Energia e Vibração Poderosa .
O Português foi Criado e é uma Dádiva do Espírito Santo , o Verbo Criadôr , a Portugal .
Por isso , o Verbo Português não é o brasileiro …cada Nação tem no SEU Verbo a Energia Superiôr a que Vibra , e Portugal NÃO é o Brasil .
Portugal fala Português e o Brasil , Brasileiro .
Por isso , ao aceitarem escrevêr em brasuquês/acordês , estão-se a Desviar da Energia do Pôrto-do-Graal …fá-lo-ão provávelmente , de forma inconsciente , e é por isso que vos estou a alertar para o facto.
O Maldito Desacôrdo ôrtográfico é um Ataque insidiôso e Maligno das fôrças Involutivas nêgras ao Verbo de Portugal , ao Espírito de Portugal , á Vibração de Portugal , que é ancestral , que é a da MÃE Santíssima .Não só Portugal é Sagrado . O sêu Verbo , a Matriz do Português , ou seja o próprio Português , também o é … » (Rogério Maciel em resposta a uma pergunta num site )
A Nenhum Português foi perguntado se queria entrar nêsse NÔJO a que se chamou de “AO” …
Não Há Nenhum Acôrdo no que respeita aos Verdadeiros Representantes da Lìngua , da Matriz da Lìngua … os Portuguêses e Portugal !
SE , a Nação que Criou a Língua não tem o Direito Natural de a Preservar e Defendêr , tal-e-qual lhe foi Legada , então êste é (Realmente !) um
mundo-em-vias-de-extinção , e a Verdade e a Justiça serão restabelecidas assim que o Extinguirmos …
Vai Acontecêr ! … e , que em estiver do lado da Mentira e da Indignidade , afundar-se-á também
Quem quiser modificar ARTIFICIALMENTE a sua língua que o faça no SEU país .
Em Portugal e na SUA Língua Mandam os Portuguêses !!!
Não te Iludas com o Aparente estado actual de fraquêza de Portugal… já passámos por situações de grave crise idÊnticas ou piores ainda e ,
não só as vencêmos como recuperámos a Luz e a Fortalêza .
Fá-Lo-êmos de Nôvo !
Portugal É Grande e AINDA CÁ ESTAMOS !!!
Pessôas como tu , não sabem nada das Lições da História …
Míopes , olham por uma lente desfocada e riscada , a mêsma dêste mundo louco , Maldôso e Estúpido , e não têm , sequer , a noção , quanto
mênos o Sentido do Longe , da Distância e da Profundidade de que o Espírito de Portugal está imbuído …
Mas , o Tempo de Portugal , do Pôrto-do-Graal está de nôvo a Chegar … a Luz de Portugal vai de nôvo Nascêr , tal-e-qual o Menino no Presépio.
Depois , nada será como antes na Sagtrada Mãe-Terra .
Espero bem que o que escrevi , seja suficientemente “civilizado” para ti .
Rogério Maciel
Caro Perucho Capucho,
O AO não é Cabalo de Troia nenhum, pois é claro e evidente e todos conhecemos quais são os interesses de cada uma das partes implicadas.
Portugal não teve mais opção que aceitá-lo porque a chamada “lusofonia” é a vaza mais importante que tem no contexto internacional.
As elites portuguesas assumiram, desnecessariamente, um papel subordinado para Portugal no contexto ibérico para satisfazer os seus espúrios interesses privados. Também assumiram um papel subordinado no contexto europeu porque não tinham mais opção.
Assim sendo, querer manter a liderança da CPLP resulta bastante ridículo.
É como se o UK quiser manter a liderança da Commonwealth. O UK é consciente de que a sua preponderância no mundo depende em grande medida da sua relação privilegiada, da sua aliança e da sua influência nos EUA.
Portugal está condenado a fazer o mesmo a respeito do Brasil. As relações entre os dois países nem sempre foram boas, mas hoje por exemplo é a GALP uma das companhias estrangeiras que mais se está a beneficiar dos novos poços petrolíferos brasileiros.
É claro que, se as relações Portugal-Brasil não fossem boas, os PALOP só poderiam estar do lado do Brasil, por razões óbvias. Portugal não se pode permitir ficar auto-marginado na CPLP, pois então viraria absolutamente irrelevante no mundo. A força de Portugal depende em grande medida da CPLP e, portanto, do Brasil.
Deixando a política e voltando ao tema do artigo, é claro que também as editoras portuguesas podem tirar benefício do AO, e elas são muito cientes disso…
Senhor Horta, nem sei quem é você nem também nom me importo, mas eu como nacionalista galego já sei o que cabe aguardar de Portugal (nom de todos os portugueses, felizemente, mas sim de Portugal como naçom). O mesmo tipo de complexos de inferioridade mental como os que levárom à cidade de Aldeia Galega a mudar o seu nome polo espanholíssimo de Montijo (nem sequer Montelho). E como vê pola minha escrita, nem tenho nenhum interesse em escrever segundo o padrom lisboeta.
Rogério Maciel, não sei que droga toma o senhor XD
Porém, a nação que criou a língua portuguesa chama-se Galiza
Os lisboetas acrescentaram apenas o seu sotaque mozárabe, para além dalgum léxico árabe, castelhano, francês e inglês. A língua e nossa, a vós foi-vos imposta
Parabéns polo seu lúcido e esclarecedor trabalho, senhor koroshitchy.
o que provoca a rejeiçom tanto de isolos :-> como de reintegratas XD
Eu escrevo à medieval, quer dizer, segundo tenha o dia
Um contributo para a memória e a reflexom:
AGAL,14/11/07
Autores do Brasil, Angola, Timor, Portugal e Galiza proponhem «Galeguia» em lugar de «Lusofonia» para designar a língua comum.
Esta iniciativa surgiu na sequência do VIII Congresso Internacional de Lusitanistas, celebrado em Compostela em Julho de 2005, e correspondeu a Ruffato a formulaçom do conceito por entender «que devolve o sentido original da raiz da nossa língua, relativiza o peso do passado colonial e reincorpora, com os devidos créditos, a Galiza a este universo comum».
Acho que o “neo-galego” de que fala o Celso A. Cáccamo num dos vídeos dos seu canais de Vimeo e Youtube tem de se codificar após a Galiza ser membro de pleno direito da CPLP.
Saúde e, outra volta, parabéns
Caro Oleiros70, obrigado pelas tuas gentis palavras
Eu também seria medievalista se não fosse tão preguiçoso… XD Medievalista e tropicalista!
Caro koro,
Nom é gentileza, mais justiça. Ignorava o caso do desleigado Vasco Graça Moura. Obrigado por isso e polo mais.
Preguiça a minha! Atlantista e “cantabrista” para nom ter de mexer-me muito e neomedievalista para nom ter de estudar “cousas modernas” XD
Saúde, meu
Portugal joga mal as suas cartas. As razões disto som complexas.
Brasil está a jogar mal as suas cartas também. Todo o que Brasil está a melhorar é em grande medida polo declínio dos EUA, mas no meu ver estâm a fazer as cousas mui mal. O Brasil vai ser ũa das potências do futuro, está chamado a isso polo seu tamanho, isso ninguém discute, mas os caminhos errados que estâm a colher hoje vam ter consequências amanhã. As razões do Brasil som complexas também.
Nom concordo coa ideia de que a língua deva ter tal homogeneidade artificiosa. Essa tal homogeneidade, aliás, nem existe no inglês nem em quase nenhũa língua, acho que existe um cegamento com certas visões (falsas) das cousas. O que nós criticamos à RAG, de jogar coa língua como se for um brinquedo, nom é mui diferente do que fai toda esta gente, e continuo a dizer que me parece mui pouco democrático. Por outra banda, se imos para um mundo de blocos geopolíticos onde o comércio vai diminuir até o imprescindível, vejo complexo que haja muito fluxo de livro impresso, e, pola contra, muito livro feito localmente, para além dum crescimento exponencial do material electrónico. Em todo este cenário, o AO perde totalmente todo significado, porque imos assistir a um colapso das economias de macro-escala (a escala planetária).
A língua é outra ferramenta mais da cultura e da Humanidade, e é própria de comunidades e colectivos. Para que o português seja língua oficial das Nações Unidas, eu nom vejo qualquer problema, se quigerem, em adoptar a norma brasileira (se todas as normas som, como som, perfeitamente legíveis e inteligíveis, isto só afecta ao emissor oficial, nom aos utilizadores), cada quem que continue na sua casa a empregar a norma que ache melhor.
Afinal, esta língua vai-se converter na que mais normas tive durante a sua história. A medieval nas suas três formas “maiores” (a latinizante, a castelhanizante e a provençalizante), a norma ampulosa barroca, as reformas europeia e americana, e a diarreia de normas galegas. O inglês quase nem mudou de escrita en 700 anos (nom se entende pola mudança semântica e léxica, algo que é mui menor na nossa língua, mas a ortografia tem mudanças bem menores).
Como for, o tempo há dizer.
Outra razão para se opor á eliminação dos grupos cultos -ct- e -pt- no AO: As crianças galegas, portuguesas e brasileiras recebem ensino de inglês maioritariamente. Se escrevemos “ato” na vez de “acto”, ajudamos ou empecemos a aprendizagem do inglês “act”? E este exemplo pode-se repetir até cansarmos.
Sou dos que acham que um acordo ortográfico é mau. Não este acordo, qualquer acordo. Trabalhei como jornalista (ou seja, profissional da língua) dez anos no Brasil e vinte em Portugal e vi, por experiência própria, que são dois idiomas com a mesma origem mas que se afastam todos os anos. Para não entrar em discussões maiores: os brasileiros têm um conceito progressista da língua e estão constatemente a modificá-la, enquanto os portugueses, essencialmente conservadores, fazem todos os esforços para a manter como está desde o princípio do século XIX. Actualmente (e não atualmente) as diferenças já são consideráveis. Quando cheguei ao Brasil e comecei a escrever, os editores riam-se dos meus textos. Riam-se, o que é pior do que achar mal. E com razão. Não só o vocabulário como os tempos verbais, o som das frases, tudo é diferente e cada vez mais diferente. Quem muda a língua é o povo, não são os académicos. Daqui a dez ou vinte anos o idioma brasileiro será tão parecido com o português como agora o português e o galaico. Para quê contrariar esta tendência nacional, que até é saudável? Não vejo nenhuma razão, a não ser o interesse das editoras portuguesas em publicar a mesma ortografia no mercado brasileiro, infinitamente maior. E depois digo-lhe: jamais conseguirei escrever Egito!
Sr.Koroshitchy aconselho-o a ler o Acordo Ortográfico e a estudar com calma as palavras que mudam a ortografia. Depois de fazer este trabalho deixará de escrever os disparates que escreve. Eu SOU 200% A FAVOR de um acordo que unifique a ortografia dos países lusófonos – mas não é esta porcaria de acordo. Repare que as palavras em que a consoante muda é o ‘c’ passaram a escrever-se da mesma forma: tecto, correcto, etc. Mas naquelas em que a consoante é o ‘p’ escreviam-se da mesma forma e agora escrevem-se de forma diferente: recepção, percepção, etc (óptimo é talvez a única excepção) – é isto a unificação ortográfica ? Não me façam rir. Por outro lado as duplas grafias deveriam ser apenas um vestígio e não aos milhares como está previsto no AO. Solução: Suspender imediatamente a aplicação deste acordo.
Caro Itchy,
creio que há alguns equívocos e outros argumentos válidos no seu discurso.
A principal mudança ortográfica deu-se com a República, em 1911. Essa mudança teve por base estudos do Séc. XIX sobre as raízes indo-europeias, o que levou a um movimento fonético. A proposta inicial (ainda em monarquia) preconizava, por exemplo, escrever “jeografia”…
Ainda no Séc. XIX, o Cardeal Saraiva sustentava que o português (e outras línguas latinas) não teriam origem no latim.
Isso parece estranho, mas não é tanto… deixo aqui um link:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/01/relacao-do-portugues-com-o-latim.html
e deixo apenas à reflexão que o grego era a língua mais falada no império romano, e o latim circunscrevia-se à zona de Roma.
Se o latim fosse dominante não teria desaparecido por abastardamento generalizado, mas sendo acarinhado sempre como língua culta.
O “iluminismo” pretendeu que os ibéricos fossem ignorantes, e teriam adoptado a língua invasora, ao contrário das outras províncias romanas.
A isso acresce a questão “romena”… os romanos só reportaram a invasão parcial do território romeno, e até Constantino mesmo a zona da actual Bucareste não estava ocupada. Há muitas teorias para isso, mas nenhuma muito convincente.
Por isso, caro Itchy, os portugueses falariam tanto árabe durante a ocupação islâmica, como latim durante a romana.
Incorporaram termos, gramática, expressões, mas a raiz, essa é mais antiga. Os bascos não foram mais teimosos que todos os outros na preservação linguística, simplesmente a sua origem seria diferente.
Quando as elites árabes saíram da península, saiu também a sua língua, a população que restou não falava árabe – só residualmente. Não se formaram “escolas” para ensinar a população campesina, e para lhes fazer esquecer o árabe…
A língua portuguesa praticamente não teve alterações nos últimos 500 anos, e já Duarte Nunes de Leão na sua “Orthographia” referia diferenças de pronúncia entre norte e sul de Portugal, com a troca dos “B” pelos “V”.
Esse mesmo autor (do Séc. XVI) dava as razões para se manter uma escrita de raiz etimológica. Porém, houve esse movimento mais abrangente de ligação fonética, no Séc. XIX, que indiciava uma ligação indo-europeia mais profunda. Com o pretexto de ir “mais fundo”, quebraram ligações etimológicas mais recentes, e ficou a confusão que se sabe.
Na génese dessa confusão estão também interesses políticos de ocultação histórica. Não será coincidência que a maçonaria que implantou a República Portuguesa, no seu primeiro ano de mandato, tenha logo proclamado a mudança ortográfica.
Achei sempre piada, no entanto, à resistência em omitir os “H” que não lemos… é uma forma engraçada de coerência.
Os franceses, onde se encontravam os principais protagonistas da via fonética, ficaram quietos… e hoje não há praticamente diferenças entre um texto francês do Séc. XVI e um actual.
Concordo que, a haver mudança, seria na recuperação da etimologia desprezada.
Assim, caro Itchy, muito aprecio que os galegos mantenham a variante antiga do português, é uma forma de preservar história e não “istórias”.
Talvez tenham existidos uns Galos ou Gaios que cantaram alto, do seu Porto, Galicia, Gales, Galia, Galacia (Ucrania), até à Galatia (Turquia) da outra Tróia. Talvez tenham perdido o pio… e aguardem que o galo (ou a fenix) cante nova alvorada.
Por isso, não leve demasiado a sério o que lhe dizem… em estruturas condicionadas nunca se sabe o que significam as coisas. Uma polémica infundada é um sistema de comunicação, e só marginalmente diz respeito ao visado. Se tiver uma notícia parva nos noticiários, normalmente não é por acaso, tem destinatários que devem conhecer os códigos implícitos. O resto da população é tratada como parva.
Como a maioria das notícias têm hoje pouca coerência lógica, isso só significa que as coisas se complicam…
Abraços,
da Maia
Caro da Maia,
Concordo no essencial. Eu não sou linguista. Mas, observando fenómenos contemporâneos de substituição linguística, imagino que, no caso do latim o processo não teria sido muito diferente do acontecido em tempos mais recentes nas colónias onde a maior parte da população era analfabeta antes da existência da escolarização obrigatória e dos media de massas.
Normalmente em tais casos o que observamos é a criação dum crioulo que vai convergindo com a língua tecto a medida que se prolonga a colonização. É o caso, por exemplo, do crioulo cabo-verdiano e outros.
As elites que se relacionavam diretamente com a hierarquia romana deviam ter umas competências aceitáveis em latim. As classes baixas não precisavam falar latim, pois as classes altas faziam as vezes de intermediários entre elas e a hierarquia romana. Assim sendo, seria possível conjeturar que o processo de crioulização nos estratos mais baixos da população seria muito lento.
Um exemplo disto é a Inglaterra durante o domínio normando. As classes altas falavam francês (à normanda) e as classes baixas fundamentalmente saxão. A penetração do francês no saxão falado pela plebe foi relativamente feble (débil em galego), até que o saxão foi reinstaurado como língua oficial do reino. Momento no qual, calcula-se que entraram na língua inglesa mais de 300.000 palavras francesas (e são estimações conservadoras).
Se calhar a penetração do latim foi mais rápida por causa do serviço militar obrigatório, o qual podia durar muitos anos (até 25) e fazia com que os soldados tivessem frequentemente que viajar por tudo o império. Assim sendo, se não falavam latim direito, deviam falar uma sorte de “Globish” (tomo o termo do pseudo-inglês falado cada dia nos quatro cantos do mundo) inteligível em tudo o império.
Seja como for, é claro que a maior parte da população do Império nunca falou latim, mas sim diversos crioulos formados por hibridação entre o latim e o substrato linguístico anterior (ou mais bem por sobreposição do latim acima do substrato anterior). A percentagem de latim nesses crioulos era provavelmente muito variável em função de muitos parâmetros: classe social, duração da colonização, semelhança da língua nativa com o próprio latim, etc.
O que houve provavelmente foi, como aconteceu com o inglês, uma relatinização desses crioulos na altura na que viram línguas cultas e/ou línguas administrativas nos diferentes reinos. Isto é assim por duas razões: 1.- O crioulo das elites achava-se mais próximo do próprio latim do que o falado pelas classes baixas analfabetas; e 2.- A língua do povo carecia de vocabulário específico em muitas áreas como a legislação, as diferentes disciplinas académicas, etc.
O mesmo processo leva acontecendo com a língua galega durante os últimos 500 anos, o que tem como resultado que o galego se tenha convertido num crioulo castelão-português. E o processo continua…
Porém, o feito do galego ter sido uma língua exclusivamente popular durante estes séculos também faz com que conserve muitas palavras de origem celta e/ou germânico que não aparecem nos dicionários portugueses (mais ainda vivem nalgumas zonas rurais de Portugal). Este facto, a priori, confirmaria a teoria da relatinização progressival (medieval e posterior) da língua.
Falo de palavras como brêtema, granha, branha, bouça, touça, chousa, croio, cômaro, bugalho, etc. Quase todas aparecem neste dicionário: http://www.estraviz.org/
Abraço,
Caro Itchy,
obrigado pela resposta, com a qual concordo. O caso inglês é um outro bom exemplo, sem dúvida… e se há alguma coisa estranha será os normandos terem rapidamente adoptado o francês e não terem prescindido logo dele na Inglaterra.
Afinal, também parece que suevos, alanos, vândalos e visigodos não deixaram traço visível da sua língua original.
É claro que há processos de aculturação, e pequenas mudanças sucessivas são bem mais eficazes do que grandes alterações. As pessoas não se indignam com uma pequena mudança de cada vez, tanto quanto se indignam com uma grande alteração.
Por isso, concordo que talvez as alterações latinas tenham sido “pacíficas” para a população ibérica, que teria uma língua semelhante ao latim, e menos aceites numa comunidade basca (ou vasca).
O que já notei depois da mudança de 1911 foi uma mudança fonética… ou seja, a simples alteração na escrita provoca uma mudança na fonética a longo prazo. Nem acho que os portugueses tenham ficado necessariamente mais próximos da língua antiga, os brasileiros usam expressões de origem antiga que aqui caíram em desuso.
Acho que pode haver um acordo para uma escrita comum, mas não deve ser imposta a nenhum dos países. Serviria para efeitos oficiais, e assim poderia sair-se desta trapalhada…
Abraços.
Vc escreveu o seguinte:
“[VGM denunciou] num hilariante e disparatado relatório (não demandado) a suposta “imposição” do galego-português na Galiza em detrimento do castelhano.”
O documento a que se refere suponho que seja este:
http://www.europarl.europa.eu/oeil/popups/printficheglobal.pdf?id=568183&l=en
Por favor confirme se é esse o documento ou, não sendo, que documento é.
Em qualquer caso, por favor cite o trecho em que VGM escreveu sobre os prejuízos para o castelhano que veem do galego.
Obrigado.
Haveria que pedir-lhe ao Graça Mora o relatório original (não modificado) e dispor também dos anexos.
A imprensa nacionalista espanhola considerou uma vitória o relatório de “Gracia Mora”:
http://www.reporterodigital.com/galicia/post.php/2009/02/18/idioma_lengua_union_uropea_gallego_catal_8987
Jornais espanhóis davam a entender que era o Partido Popular espanhol quem estava por trás do relatório de Gracia Mora. O que é um facto é que pouco antes de enviar o relatório Gracia Mora teve uma reunião com os membros da organização supremacista de extrema direita espanhola Galicia Bilingüe é que são os pontos de vista desta associação os que prevalecem no relatório de Gracia Mora.
Porém, o relatório foi finalmente substituído por outro:
http://eblul.eurolang.net/index.php?option=com_content&task=view&id=200&Itemid=37