O Acordo Ortográfico e a direita conservadora portuguesa

Sou dos que acham que o Acordo Ortográfico (AO) é boa coisa. Não necessariamente este Acordo, mas um acordo. Obviamente, modificar qualquer convenção amplamente adotada durante décadas vai criar muitos transtornos a curto termo. Porém, para mim é claro que as vantagens de “unificar” a língua a longo prazo vão compensar com acréscimo estes inconvenientes. Não vou fornecer argumentos a este respeito, pois são eles, acho, bem conhecidos e evidentes.

Contribuir para unificar a língua pode não ser imprescindível, mas sim muito conveniente.

Fonética versus etimologia

Sou a favor do acordo, mas não dos critérios linguísticos empregues para homogeneizar a ortografia da nossa língua. Grosso modo, foram estes critérios foneticistas.

Penso que é um erro tentar unificar uma língua diversa e internacional em base a critérios fonéticos. A fonética, junto com e em maior medida do que, o léxico e a fraseologia, costuma ser precisamente uma das caraterísticas mais divergentes de qualquer língua. Até dentro dum mesmo país ou região, e apesar das pressões uniformizadoras exercidas pelos estados-nação,  observamos normalmente uma grande diversidade de pronúncias. Nisto o galego-português fica longe de ser uma exceção e apresenta, bem pelo contrário, as mesmas tendências que, por exemplo, o inglês, o francês, o alemão, o espanhol, etc.

O que unifica a língua é precisamente a etimologia. Bons exemplos do que digo são precisamente o inglês e o francês. Particularmente, neste último caso e desde o ponto de vista do latim, a fonética francesa difere completamente da escrita. Mas é precisamente essa escrita etimológica o que confere unidade à língua e permite afirmarmos que um suíço, um belga, um quebequês,  um occitano e um parisiense falam a mesma língua. Porém, e sempre desde a perspetiva do latim, nenhum deles pronúncia como escreve.

É por isso que para unificar de forma eficaz a língua galego-portuguesa, teria sido mais conveniente, não apenas conservar os cultismos já existentes, mas ainda ré-etimologizar a língua em base ao latim e ao grego. A língua portuguesa deveria ser, quando menos, tão etimológica quanto são o francês ou o inglês pois é precisamente a etimologia o que melhor pode garantir a unidade dentro da diversidade.

Acordo político

Além de qualquer fetichismo linguístico, resulta evidente que um acordo ortográfico internacional é um acordo político e não linguístico. Um tal acordo vai refletir irremediavelmente o equilíbrio de poderes entre as partes. Por isso no AO de 1990 prevaleceram fundamentalmente os critérios brasileiros, em detrimento dos portugueses.

Porém, foi tão difícil chegar a este acordo e estão a ser tantos os empecilhos para a sua aplicação, que eu não posso se não fazer um esforço para aderir a este acordo, com o qual não comungo desde o ponto de vista linguístico mas que acho muito necessário e conveniente desde o político (leia-se económico).

Para além das possíveis repercussões económicas do acordo, o que é claro é a importância simbólica do mesmo, pois testemunha a vontade da unidade, a vontade de termos língua,  e a vontade de construção duma verdadeira comunidade galegófona (ou lusófona, que diriam alguns).

Se no caso da francofonia ou da hispanofonia, são as antigas metrópoles coloniais, a meio das suas respetivas academias, as que impõem os seus critérios sobre os demais países, não deixa de ser interessante e significativo que no universo galegófono tenha havido longas reuniões e genuínas discussões entre todas as partes implicadas (menos a Galiza, que foi oficialmente auto-excluída) antes do acordo ser finalmente alcançado.

Os detratores do acordo

Os principais detratores do Acordo acham-se tipicamente entre as fileiras da direita conservadora portuguesa.

As justificações declaradas destes detratores baseia-se primordialmente na inutilidade do acordo. Para eles, o AO era desnecessário e vai fornecer mais problemas do que vantagens reais. Aduzem que é inútil a unidade ortográfica não havendo unidade léxica, pelo que vai ser necessário continuar a ter duplas edições de qualquer publicação, uma para o Brasil e outra para o resto (embora as ruas da África cada vez falem mais à brasileira e menos à portuguesa).

Na verdade, as diferenças léxicas não suporiam um grande obstáculo sempre que houver um intercâmbio cultural intenso entre os diferentes países da galeguia ou lusofonia.  Assim, por exemplo, a audiência portuguesa teve certas dificuldades para perceber a língua quando começaram a chegar as telenovelas brasileiras na década dos 80. Hoje essa dificuldade é quase nula. A Wikipédia portuguesa é outro excelente exemplo. Graças ao AO pode existir uma única Wikipédia portuguesa unificada e coerente, evitando a duplicidade, o qual significa também um maior número de entradas e uma maior presença da língua na Internet. No que diz à edição em papel, é quase sempre possível empregar glossários que facilitem a intercompreensão mútua.

Desde o ponto de vista linguístico, os críticos com o acordo laiam-se pela perda dos grupos consonânticos cultos como “ct” ou “pt”. Ironicamente, estes grupos já não são pronunciados nem no Brasil nem em Portugal, sendo apenas os galegos os únicos que os pronunciamos. De facto, é só na Galiza onde a  perda destes grupos pode ter qualquer efeito prático (para além do fetichismo linguístico antes apontado).  Por exemplo, com o novo acordo, “tecto” passa a ser “teto”, o qual para os galegos resulta bastante engraçado pois aqui “tetos” são apenas os das vacas e outros animais. Na Galiza, o latim “tectum” sofreu a evolução lógica do romance ibérico ocidental (ou romance galaico) para dar “teito”. O cultismo português “tecto” permitia diferenciar o elemento arquitetónico do úbere, para além de viabilizar as três possíveis pronúncias (a culta “tecto”, a evoluída “teito” e a deturpada “teto”). A grafia “teto” torna inviáveis as outras pronúncias. É, pois, lógico que neste ponto coincida com os críticos. Embora eu, como apontei acima, iria ainda mais longe e proporia um modelo de língua o mais etimológica possível e/ou conveniente.

Entre o fetichismo e o chauvinismo

Mas, a pouco que analisemos o discurso dos críticos com o acordo ortográfico, observaremos que as suas motivações reais são duas:

1.- A primeira é esse fetichismo linguístico ao que fazíamos referência. Para eles, português direito é apenas o que aprenderam na escola. Sendo, portanto, o português do Brasil uma forma abastardada do verdadeiro português (esse galaico-mozárabe de Lisboa infestado de castelanismos, galicismos e anglicismos que praticam as elites portuguesas). Por isso, estes críticos, não é que não queiram este acordo, é que não querem nenhum acordo. São isolacionistas portugueses que querem conservar impoluta a pureza da língua tal e como falada na escola primária pela sua professora Josefina, com a qual ainda têm sonhos eróticos inconfessáveis. Se por eles for, para não poluir mais ainda a sagrada língua, os filmes e as séries brasileiras deveriam ser dobrados para o mercado português. São também os mesmos que acham que Saramago escrevia em portunhol (não é piada). E se o brasileiro os indigna, o galego dá-lhes arrepios.

2.- A segunda é uma sorte de nacionalismo português chauvinista e vazio. Acham estes críticos que o acordo ortográfico foi uma baixada de calças dos académicos e políticos portugueses frente à pujança demográfica, económica e diplomática brasileira. O seu ferido orgulho não pode aceitar que seja a ex-colónia, e não a professora Josefina, quem dite agora as normas gramaticais  da língua de Camões.

Patriotismo seletivo

O mais engraçado desde patriotismo da direita conservadora portuguesa é que semelharia que baixar as calças perante a Alemanha e a Espanha é mais digno do que fazê-lo perante o Brasil. Sim, porque uma das coisas que mais admira das elites portuguesas é a sua capacidade para defender com mais afinco os interesses da Espanha do que os interesses do próprio povo português. Um exemplo é o deputado europeu Vasco Graça Moura, um dos mais férreos detratores dos acordo ortográfico, o qual denunciava num hilariante e disparatado relatório (não demandado) a suposta “imposição” do galego-português na Galiza em detrimento do castelhano. Com paladinos do português como este, quem precisa inimigos?

E não se trata dum caso isolado. Será se calhar porque a chamada “porta giratória” espanhola funciona muito bem para os ex-ministros portugueses. Muitos dos quais são hoje endinheirados membros dos conselhos de administração de grandes empresas espanholas ou de empresas transnacionais que têm as sua filial ibérica em Madrid. Mais uma vez, com patriotas assim, quem precisa vendidos?

Os tempos mudam, as elites portuguesas, não. Mas bom, se calhar o dia no que o Brasil decida investir a sério em Portugal (como está a fazer Angola) e que exista uma porta giratória brasileira para ex-ministros portugueses, se calhar, esse dia essas mesmas elites portuguesas que hoje o denigram defenderão o Acordo Ortográfico.

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