Conversas com Gascon sobre o lusismo e o reintegracionismo
O caro Gascon escreveu um comentário na página ABOUT deste blogue que deu lugar a uma interessante conversa. Venho de mover essa conversa para este fio e de apagá-la do seu lugar original. A conversa pode eventualmente continuar nos comentários.
GASCON :
Caro Koroshiya,
pareces-me um indivíduo razoável, e eu concordo no essencial do reintegracionismo, mas se queredes ter qualquer hipôtese de sair das catacumbas deveredes evitar esse discurso lusista que nega o galego ao rebaixá-lo a dialeto. Não usardes os materiais galegos que são legitamente lusófonos (por serem dialetais em muitos espaços geográficos da Lusofonia) é uma aposta muito arriscada. Eu apostaria não só polo léxico, como vós dizedes (mas não praticades) e a oralidade (que vós sodes incapazes de praticar com uma mínima coerência), mas também pola sintaxe e pola fraseologia (eu até sacrificaria, com vós, toda a morfologia, ou quase). Isto daria um português (da Galiza) muito exquisito, sim, mas plenamente português, sem deixar de ser galego e, ainda muito importante, desletigimaria e desarmaria a proposta do galego-espanhol. Não fazerdes isso é deixardes as costas expostas a ataques futuros de três frentes: nacionalistas portugueses (sempre desconfiantes dos galegos, por serem espanhois), galegos isolinos e mais galegos espanholistas.
Hoje sou eu, um simples e isolado doente mental longe do país na internet, a vos “empurrar cara as catacumbas“, mas algum dia teredes de sair à luz do dia, e que faredes então? Eu concordo na necessidade da subversão e da alternativa civil, mas ela perde toda efetividade quando se é incapaz de criar simpatias para a causa. E vós vos alienades do povo quando lhes negades as pontes para acceder a essa revolta:
1) É a vossa ânsia de pureza que causa nojo. Mesmo eu, que compreendo que o galego é essencialmente português, e que o isolacionismo é uma ilusão espanholista, sinto esse nojo polos apóstolos da pureza lusista.
2) É a vossa neurose, produto de viverdes num mundo espanholista que vos afoga, a ver inimigos por toda a parte e a abraçar o fundamentalismo ortográfico e normativo, como única (e Verdadeira) hipôtese. Isso também é, em termos de marketing, muito negativo.
Cumpre-vos gente coma ao Fagim, que supere o vosso Fundamentalismo. Eu acho que tu estás a te deixar levar nesse “maelstrom“ de neurose, como penso lhes passa a gente como o Miro Momám ou o Evaristo Vasques Sousa, que também são gente razoável, e os fundamentalistas como o Antonio Gil ou a Isabel Rei estão a vos perturbar e influenciar negativamente. Esses dous, por exemplo, são os típicos talibães, escravos, um, do orgulho inteletual e teima anti-fascista de velho, e, a outra, da ânsia quase mística de pureza, e mais da neurose anti-fascista também.
Eu vou desaparecer em breve do debate, até porque o meu autismo ou asperger’s requer outro tipo de terapia, mas penso que tenho a lucidez para ver onde estão as vossas falhas. As minhas críticas ao teu vídeo do Cristóvão, sei-que demasiado acedas, voltarão a ser feitas por outros porém. Que farás então, censurar os comentários, fazer como os isolinos, que desapareceram do debate?
Mais de se os meus argumentos são certos ou não, justos ou não, conta é que não sabedes responder às críticas, pola vossa rigidez e neurose. Conta o não serdes quem de absorver as críticas duma maneira positiva, dando razão dalgum jeito a quem vos critica, para comungar dos dous lados. Vós tedes a vossa teologia e os vossos ritos iniciáticos, que todo aderente deve passar. Ora, como seita não tedes hipótese de um dia devirdes “mainstream“, porque aqui trata-se dum tema (língua e identidade galega) NÃO ESSENCIAL. Essencial é a democracia (ou a ilussão dela, para melhor falar), a subsistência, a identidade cristã-europeia (face ao Islam, por exemplo). Se a nossa teima fosse uma delas, então a ação da seita teria qualquer hipótese de conquistar, no futuro, o poder. Mas o nosso caso e completamente diferente. Eu, por exemplo, vou deixar o debate, para me centrar no tema estritamente cultural e linguístico, até porque eu posso cultivar a minha identidade galega (eu apresento-me, quando me perguntam, como português) sem preocupar-me de “que dirão“, e do resto a minhas teimas essenciais são outras. Mas vós, sem mostrades às claras como o galego é português (as prédicas não convencem) não passaredes de “freaks“ lusistas.
A utilidade do português também é relativa. Eu tenho na minha familia, raiota materna e paterna, gente que fez muitos negócios com os trasmontanos, que trabalhou (eu mesmo) com eles, entre eles, e nunca foi necessário o recurso ao português escrito, para além do que sabe qualquer galego isolino. Falava-se em português-nortenho e castrapo, e sem problemas, mesmo em castelám. Mas se alguém queria mudar a nacionalidade eram os trasmontanos (como de resto fizeram muitos deles), era esse o único irredentismo. Agora vós pretendedes acordar um irredentismo no senso contrário, baseado apenas no revisionismo histórico (o qual é, sim, necessário) e outros produtos inteletuais. Não dá, amigo, não dá para nada de isso.
Repara no que fazem alguns galegos namentres o Cristóvão faz as suas “leituras“ em Lisboa:
http://ogalaico.blogspot.com/2011/10/historia-da-gallaecia-em-teatro-amador.html
Quem acordará mais simpatias? Não estão uns a contradizer os outros? É necessário criar essa contradição e confussão? Tanto lhe custava ao Cristovão fazer referência às especificidades galegas, que de resto hoje já seriam vistas em Portugal com simpatia, e não com o desprezo às “fezes galizianas“ da época moderna? Impedem elas a intercompreensão? (Ou será que impedem o negôcio dos livreiros e escirtores?)
Espero que isto seja de qualquer interesse para ti, se não podes deitá-lo ao lixo, não se passa nada …
Saúde
Xavier Andre
KOROSHIYA :
Caro Xavier Andre,
Eu acho que o teu discurso é muito coerente e até posso coincidir contigo na maioria das cousas que dizes. O problema é a tua atitude. Primeiro, por ser uma teima obsessiva e mono-temática. Observa que neste blogue praticamente não se fala do reintegracionismo. Acho que há apenas duas alusões indiretas no meio de 100 entradas.
O segundo problema é que estás a meter todos os reintegracionistas no mesmo saco, quando sabes muito bem que há posturas muito diversas. Sabes que a AGAL tem elaborado umas normas, as quais, embora perfetíveis, são perfeitamente válidas e respeitosas com o galego moderno. Sabes também que a maioria das pessoas que escrevem em galego reintegrado empregam a norma AGAL, embora esta tendência está a se inverter progressivamente desde a aprovação do Acordo Ortográfico.
A respeito da AGLP, para mim é lógico que tenham aderido ao AO, pois essa é uma das suas razões de ser. Eu concebo a AGAL como o reintegracionismo pedagógico para consumo interno e a AGLP como a nossa embaixada diplomática no estrangeiro. São, portanto, entidades complementares que estão a fazer um trabalho importantíssimo nos seus âmbitos de atuação respetivos.
Seguramente o 90 % das pessoas que fazem parte da AGAL poderiam concordar contigo se fosses uma pessoa mais respeitosa e se a tua focagem fosse mais construtiva. Acho que te queimaste nos fora do PGL a discutir com quatro ou cinco fundamentalistas que apenas se representam a si próprios. O problema é que a tua radicalidade e o teu fundamentalismo achega-te a eles e afasta-te do 90 % do reintegracionismo.
Atenciosamente,
Koroshiya Itchy
GASCON :
Caro Koroshiya,
sim, concordo com a tua crítica. A minha atitude pessoal é produto duma certa condição “abnormal“ na minha personalidade (ou nas minhas capacidades cognitivas), que se traduz em, digamos, certas fixações obssesivas. Por isso eu vou abandonar o debate da questione da língua galega em breve, e desta vez para sempre.
Porém, apenas três observações mais sobre ele, antes de marchar:
1) Podes considerar a minha teima contra os que eu chamo de “fundamentalistas lusistas“ como um resultado dessa caraterística (ou mesmo outra qualquer) na minha personalidade, e consequentemente como algo a ignorar. Mas também pode ser interpretado como uma voz singular que exterioriza hoje certos sentimentos (reprimidos, ou ignorados) coleitivos, da sociedade galega. Ou seja, o que eu venho dizendo a berros, algum dia poderia vier a ser expressado com mais calma, mas por muitas vozes. Qual será a vossa resposta então? Invocar aos mesmos postulados e apóstolos da ideologia lusista? Essa ideologia só achará lugar nas mentes de quem rejeitar o espanholismo, mesmo o moderado. Por tanto, antes de encher o copo com algo, há que valeirá-lo do que tem. Mas como? A golpe de escrita internêtica? Na minha família há muita gente que fala e escreve o português muito aceitavelmente. Mas são reintegracionistas? Para nada. O português é-lhes uma língua estrangeira, muito vizinha sim, mesmo familiar, mas o castelám não perde nada da sua primacia incontestável.
2) Confundes, como fazem os fundamentalistas lusistas, norma ou modelo culto com ortografia. Parece-me bem, e necessário, aderir ao AO, tanto a AGLP como a AGAL. Mas o modelo de português da Galiza vai muito além de qualquer escolha ortográfica: a sintaxe, a morfologia, o léxico, a sintaxe, a fraseologia, a prosódia. Eu defino como fundamentalista quem ignorar estes aspetos da língua, independentemente da escolha ortográfica. São os que falam de UMA LINGUA, UMA NORMA, UMA ORTOGRAFIA (como os senhores Gil, Cáccamo ou a senhora Rei, por dar apenas três exemplos) os que estão a desnaturalizar o galego. O português é galego, sim, ao 90% ou mais, mas quando se escolhe ignorar ou marginalizar muitos materiais linguísticos plenamente galegos, por não coincidirem com qualquer dos usos do padrão português (europeu ou brasileiro) está-se a desnaturalizar a língua. E penso que isso deve ser denunciado, porque, na minha opinião, o FUNDAMENTALISMO LUSISTA, ESTÁ A DESVIRTUAR A MENSAGEM REINTEGRACIONISTA (ou regeneracionista, que diria o Fagim) e a vos empurrar cara as catacumbas.
3) Qualquer norma culta se alimenta de, e alimenta à sua vez, o vernacular. Adotar um modelo de português em que o vernacular galego esteja desbotado não tem nenhuma sustentabilidade. Sabemos bem os problemas diglôssicos do Brasil. Ora, na Galiza os lusistas querem introduzir uma TRIGLOSSIA, por quererem fazer do galego algo muito diferente do vernacular castrapo ou o seu substituto “tevegallo“. Só uma visão ideológica radical e revolucionária pode contemplar o sucesso desse projeto.
Resumo: andades com mãs companhias (e já sabes que não sou o primeiro a dizê-lo). Muito probavelmente esses fundamentalistas sejam muito boas pessoas, mas acho que são um perigo para o galego poder um dia se regenerar, porque estes indivíduos são escravos da sua ideologia, da sua ânsia de pureza, do seu ressentimento contra o espanholismo. E penso que não se passa nada com que um galego qualquer, eu neste caso, denuncie esse perigo, e vos acautele contra eles.
Eu sei bem que resistir a tentação a cair na marginalidade é muito difícil, e exige uma grande coragem de espírito e determinação. Porém, muitos de vós já caistes nela, e se o reintegracionismo não conseguir se introduzir (duma maneira ou de outra) no galego “mainstream“, tudo é “game over“. Esperemos que saibades, como tu mesmo disseste numa ocasião, termar dos radicais fundamentalistas.
Eu fiquei desapontado com a intervenção do senhor Cristóvão na RTP2, porque definiu o galego como português com apenas léxico e sotaque peculiares. E isto é faltar a sua responsabilidade, porque os portugueses não são parvos, e podem ver a TVG, e escutar falar os galegos. E os que não puderem, haverão de ficar bem enganados, uma vez que conferissem a realidade in situ.
Em qualquer caso, duvido muito que as minhas crítica surtam qualquer efeto, mesmo que fossem mais construtivas. Mas quero deixar testemuna do meu rejeite ao reintegracionismo radical, ou Fundamentalismo Lusista, e aos que o servem ou desculpam. Eu não tenho problema com ser visto ou chamado de português, o que não quero é que me chamem “lusista“, porque eu sou GALEGO, e por tanto não precisso de nenhum “ismo“.
http://quantomaisaolonge.blogspot.com/2011/01/galedinho-afoutado.html
E mais nada, atenciosamente
Xavier
KOROSHIYA :
Penso que exageras. Ninguém ignora que o caráter diferencial do galego vai além da ortografia. Mas não se pode explicar tudo com detalhe em tudo momento. Há que modular as mensagens consoante com o interlocutor e com as prioridades do momento. Exageras também no “perigo”. Qualquer pessoa inteligente dará-se conta de que um movimento qualquer será tão diverso como diversa é a sociedade na que está inserido. O reintegracionismo é diverso.
Eu também acho que a mensagem do Cristovão contribui para criar falsas expectativas. Mas não lhe dou mais importância da que tem.
Do resto, fazemos o que podemos. Os reintegrantes coma o resto. O que imos podendo. Nem mais nem menos.
Quando tiver tempo, vou mover esta conversa para um lugar mais adequado. Se calhar, uma entrada no blogue.
GASCON :
Koroshitchy, não creio que eu esteja a exagerar sobre o perigo do Fundamentalismo Lusista. A “inteligentsia“ reintegracionista vive e funciona numa “burbulha“, porque não existe, nunca existiu, o “reintegracionismo popular“. Nunca houve qualquer movimento irredentista lusista substancial, que pervivesse e deixasse uma marca tangível e concretizável nas memória popular, aquem ou além da fronteiras espanholas. Os paisanos galegos, sobre todo os das raias, sempre se sentiram próximos daqueles do outro lado (como aquele desenho do Castelão amostra), mas nunca ligaram esse sentimento com qualquer pretensão política. O irredentismo (galego ou português) é apenas, sempre foi, arela de minorias inteletuais ou políticas. Por tanto, o “irredentismo“ político ou linguístico (o lusismo que nos ocupa) é um fenómeno de minorias dissidentes, e estas minorias seguem “dinâmicas de burbulha“, ou seja, evoluem à margem dos sentimentos e inclinações populares do meio em que estiverem.
A dinâmica interna nessa burbulha está determinada por aqueles que mais energia empregarem, neste caso os mais “determinados“, que são, claro, os lusistas radicais. Os demais deverão adequar-se aos ritmos marcados por estes radicais, que são os mais ativos. Assim, a AGAL foi ultrapassada pol AGLP, porque esta se “movimenta“ mais, e não porque tenha mais apoio popular (que de resto não tem em absoluto). Isto podia-se apalpar nos foros do PGL, quando as vozes discordantes do radicalismo lusista eram tratadas com grande paternalismo (e por vezes intimidação). Os únicos que nos opuxemos a elas fizêmo-lo a partir da hostilidade aberta (uns com mais educação, outros com bem pouca, como a mim), que era a única maneira de expressar o nosso desacordo a seguir essas linhas radicais, que eram as que marcavam o passo, as mais dinâmicas (ao conseguir alhures, internacionalmente, o que não se conseguia dentro). E com essa nossa hostilidade, alheiámonos do reintegracionismo, e deixámo-lo no “poder“ dos radicais. Ou seja, hoje, para ser reintegracionista, há que “dizer que sim“ aos postulados lusistas, ou polo menos tolerá-los.
O problema é que nessa dinâmica interna que afeta o reintegracionismo a burbulha cresce em viço e espessor, e porém não deixa de ser burbulha num ambiênte que não muda mais que para ser cada vez mais espanhol (como os próprios lusistas denunciam). Se a “barreira citológica“ que separa a burbulha do seu meio vier a desaparecer, as “leis de ôsmose“ fariam com que o seu conteúdo se dissolvesse no meio sem deixar nem rasto. Por isso, na dinâmica de burbulha que governa o lusismo, a única hipôtese de sobrevivência é no isolamento do meio: não é possível difundir a mensagem interna ao conjunto dos galegos, que vivem num meio de diferente “ph“ ou salinidade, porque ela é tam discordante (os usos vernaculares perante a norma portuguesa) que não aceitaria essa mensagem, mas acabaria por fagocitá-la, algo que até faz com as tendências reintegracionistas mais moderadas, que fora de reduzidos espaços desaparecem sem serem percebidas.
Enquanto não se reduzirem os contrastes entre o ambiente interno e externo dessa burbulha, ela continuará como o que é, como burbulha, e como tal, como algo inútil. E enquanto se concebir o português como uma língua com uma norma só, ou com apenas duas variedades (a europeia e mais a brasileiras) dela, o conteúdo da burbulha serão de tal alcalinidade (em oposição à acidez do galego) que não poderá sobreviver fora dela.
Com esta visão “biológica“ (saiu-me sem eu a procurar) eu entendo que o galego só pode ser português se houver um português mais próximo do galego, um português que incorpore os materiais do vernacular galego não castelanizados, um português plenamente galego, distinto do de Portugal e do do Brasil, mas inteiramente português. Isto seria “tolerável“ no ambiente galego, e a utilidade e prestígio dele faria o resto.
Por que rejeitam isto os fundamentalistas lusistas, e apenas contemplam a equivâlencia quase perfeita galego = português? Para mim é claro: porque na sua luta e neurôse antiespanholista e filolusista (a qual não deixa de ser um resutado de excessiva exposição ao espanholismo) qualquer concessão ao dialetalismo é interpretado como dar armas ao inimigo. É essa neurôse está a determinar a sua teoria e praxe, ao custo de se alienarem das sensibilidades populares, e a renforçar a sua dinâmica de alheiamento. Essa neurôse os levará a rejeitar qualquer concessão e divergência da sua imaginada norma internacional (no modelo da espanhola) mesmo ao prezo de ficarem isolados no cúmio do seu Olimpo Lusista. Acabarão por preferir três ou quatro galegos que escreverem bem (daquela maneira) o português, sem deixarem de ser espanhois dos pés à cabeça, antes que de verem trinta ou quarenta a serem galeguistas mas escrevendo num português “impuro“, porque polo menos eles, lusistas eleitos, terão vencido (como grupo) na sua imaginada luta heroica contra o espanholismo.
Indo ao mais prático: o reintegracionismo deveria fazer com que o galego virasse português (ou se descastelanizasse), e não em substitui-lo pola norma padrão, lisboeta ou internacional ou a que se imaginar. Renunciar a esta tarefa é renunciar ao reintegracionismo, ou regeneracionismo, e afinal renunciar ao galego. O GALEGO existe. Se o reintegracionismo não pegar nele, serão os galenholistas e espanholistas ao fazerem, a consolidá-lo como dialeto espanhol, ou língua reXional. e o castelám a se esfregar as mãos.
O PORTUGUÊS DA GALIZA não é esse de que andam a falar os fundamentalistas lusistas, mas um outro que pode e deve ser criado polos reintegracionistas, possivelmente dentro da estrutura da AGLP. Um que possa ser considerado em igual categoria ao de Portugal e ao do Brasil. Num mundo ideal, o lisboeta seria o nosso galego, tal como acontece no norte de Portugal, mas as defeitas da história não se podem mudar com proclamas seitárias sem nenhuma acolhida popular. E isto é o que os fundamentalistas lusistas nunca aceitarão, porque para eles a PUREZA é o mais importante, e um galego não idêntico ao português é IMPURO. Mesmo que com ele se condene o povo, mas os PUROS serão salvos.
Caro Koroshiya,
parece-me muito bem deslocares esta conversa, ou que julgares salientável dela, para uma entrada no teu blogue. Pola minha parte, eu oferezo-me para expor, em pontos e argumentos concretos, quais as fraquezas e perigos do radicalismo lusista, por que e como ameaçam a regeneração do galego, e quais alternativas seriam melhores. Para já, penso que ajudaria a superar o velho debate reintegracionismo-isolacionismo, o falarmos de “regeneracionismo“ (penso que assim falou o Fagim) e de não ter medo de chamar o português de galego, ou a Lusofonia de galeguia. Tal como dizemos “castellano“, deveriamos dizer “galego“, sem ter de aludir ao termo “português“. Também acho que devemos deixar claro que devemos aderir ao Acordo Ortográfico, seja este qual for, por razões de simples pragmatismo, sem por isso termos de cantar os seus louvores (isso é patrimônio exclusivo dos lusistas).
E eu comprométo-me a não participar no debate, uma vez que eu pudesse deixar aqui expostas as minhas teses e argumentos. Quem quisser retrucar que seja escutado, mas eu já terei falado de mais.
Saúde
KOROSHIYA :
Não acho que seja correto julgar um movimento através de comentários nos foros da internet. Com efeito, quem comenta nesses foros são os mais radicais e os mais ociosos. E essa sim que é uma combinação “perigosa”
The devil will find work for idle hands to do.
Caro Koroshiya,
a través dos comentários e conversas deixados nos foros da internet uma pessoa qualquer pode fazer-se uma idéia do que se quer e não quer, do que se faz ou se deixa de fazer, e mais do que se quer fazer mas não se dá feito. Penso também que há por aí muitas cousas não ditas, ou apenas insinuadas, que se “deixam lêr entre linhas“. Também a partir do que vadios e radicais dim, e do que não dim, imos conhecendo por onde vai indo a cousa. E se bem é verdade que o demo leva jogando comigo um bom anaco, não é ele um jogo perigoso, tirado para mim próprio e mais ninguém.
Também devo pontualizar que o que começou esta conversa nossa (que não interessa a ninguém) foi o facto de tu exerceres um acto de censura internêtica, por teres percebido uma ameaça, nos meus comentários, contra o lusismo. Isto espelha o estado de neurôse e de alheiamento em que habitades. Mesmo tu, que concordas comigo no erro do senhor Cristóvão ter levantado falsas expectativas, funcionaste em modo defensivo, em defesa da autoridade emanada pola AGLP. E eu devo insistir em que não reconheçerei jamais a autoridade dessa associaçião enquanto ela estiver governada por gente que não se importa com a defunção do galego (ou português da Galiza), mas apenas com a introduição na Galiza do dialeto padrão português (europeu, internacional ou mesmo portunhol, que nem se sabe o que ele é) como modelo de dialeto culto.
Acho que a atitude radical lusista é tão irresponsável como a isolacionista. Ambas negam o galego, porque respondem a interesses pessoais ou grupais, mais materialistas uns, mais espirituais outros. Mas sempre pessoais ou grupais. Por isso eu não comungo nem com uns nem com outros, e por isso vou continuar a vos criticar, por uns três ou quatro meses mais, antes de desaparecer. Andar a falar por aí, for onde for, dentro ou fora, de o galego ser português com apenas léxico e sotaque peculiares é algo que ninguém vai acreditar, nem dentro nem fora, agás os mais ignorantes. Aliás, é jogardes toda a vossa credibilidade (a pouca que tedes) ao lixo. Pretender introduzir o DIALETO CULTO português na Galiza sem enfiar nele boa parte do que sendo galego não coincide com ele, é uma estratégia de tresloucados e tolos, que não vai dar mais que uma espêcie de portunhol de galicia para os seguidores da seita lusista.
Fode-vos que vo-lo façam lembrar, Koroshiya, mas isto é algo que qualquer pessoa inteligente pode chegar a concluir sem grande dificuldade. Passarão vinte, trinta, quarenta, cincuenta anos, e continuaredes no sítio exato onde estades agora: minoria sem nenhuma relevância social, iluminados lusistas num mundo cada vez mais espanhol.
“Abandonamos o galego para fazer mais doada a espanholização do país”, eis o vosso epitáfio futuro. Dista muito do modelo de hérois que alguns se vêm imaginando para si.
Saúde
Eu acho que nem as vossas opiniões nem as vossas lutas de rãs contra ratos são estatisticamente representativas do que é o reintegracionismo hoje. Simplesmente são mais visíveis porque passades o dia a discutir nos foros, enquanto o resto das pessoas têm mais que fazer e já ficaram aborrecidas das vossas lérias.
É verdade que essa meia dúzia que tu chamas de “fundamentalistas” ocupam postos de relevância na AGLP, mas para isso são bons. Quero dizer que não é mau que na nossa embaixada na “lusofonia” haja alguns lusistas radicais. É como quando o PSOE envia um fundamentalista católico como Francisco Váquez de embaixador ao Vaticano. Tá bem. É o seu. Direi mais, acho que ser quem de pôr a gente lá onde resulta mais produtiva, em função dos seus interesses e capacidades, otimiza o trabalho de equipa e é um sintoma de inteligência do movimento reintegracionista (muito pouco habitual na Galiza, onde os conflitos internos resultam frequentemente em canibalismo, como estamos a ver estes dias).
Não concordo, Koroshiya. Não são lutas de rãs contra ratos, mas apenas o facto de eu, um internauta qualquer, criticar abertamente a corrente lusista do reintegracionismo, e a seguir ser apagado ou ignorado. Julgo que os lusistas estão a fazer mais mau que bem ao reintegracionismo, porque com o seu discurso simplório andam a tergiversar a realidade e a mensagem do reintegracionismo, o qual criará inimigos dentro e fora, e alheiará possíveis aliados e aderentes.
O que disse o Cristóvão na RTP2 é um exemplo de mã diplomacia. Estades a cair nessa banalidade de o vosso português mono-normativo, que em realidade não existe nenhures, e a esqueceres a verdadeira mensagem do reintegracionismo: o galego ou é galego-espanhol, ou é galego-português. Os fundamentalistas querem esquecer o galego, tratá-lo como um dialeto, e passar a empregar o português, apenas com um “léxico e sotaque“ (como disse o presidente da pro-AGLP). Isto, para além de supor o abandono da “mensagem patrimonial do reintegracionismo“ (segundo o entendo eu) é um ERRO ESTRATÉGICO ENORME, que só aqueles cegados pola fé não são quem de alviscar.
Explico: o galego existe, mesmo sendo um dialeto híbrido-espanhol. Abandoná-lo e adoptar o português como opção “culta“ não vai tornar o país em “lusófono“, a menos que seja algo para todos os cidadãos, ou polo menos para uma parte significativa deles, o qual está muito longe do terreno do possível. Cumpre pegar no galego, tirá-lo das maus dos isolacionistas, e i-lo virando português. E para isso, eu admito que o padrão português europeu, segundo o AO, é o melhor instrumento. Mas há que demonstrar, na teoria e na prática, como esse padrão pode ser galego. O léxico, a semântica, a fraseologia, a sintaxe, mesmo a morfologia, tudo isso deve ser empregado visivelmente, para podermos ter qualquer credibilidade e legitimidade. Por isso eu vou deixando gravações do meu galego na internet, para fazer claro como o meu galego-português é mais galego que o galenhol deles, e sem deixar de ser português, no caso de ser criticado por usar a ortografia e outras cousas portuguesas.
Mas o problema grave é que há gente no Reintegracionismo que, obcecada pola sua idéia de norma e ortografia única, está a escaralhar esta legitimidade. Se tu não queres denunciá-los, está bem, mas alguém o fará algum dia. Eu faço-o dentro do “pensamento“ reintegracionista, mas haverá muitos que a partir do isolacionismo aproveitarão para arrebolar mísseis contra o reintegracionismo em geral. E com armas dadas de balde, mercê aos vossos lusistas. Os quais responderão com mais acirramento e radicalidade, dizendo-vos, “vede como são eles que estão contra o reintegracionismo“. Devedes superar esta argalhada lusista, ou ides rematar todos exiliados com eles no alto do seu olimpo. Não se pode deixar que o Fundamentalismo Lusista sequestre o movimento reintegracionista e o trucide.
Koroshiya, eu sou tão anti-espanholista como a ti, fujo de todo o espanhol, na medida do possível, e até me apresento pola mundo adiante como português; eu emprego o padrão português, falo galego sem thetaismo e com muita cousa galega que só o português conserva, mas REFUSO e ARRENEGO de secundar o discurso lusista seitário que despreza o galego como IMPURO ou dialetal, indigno de ser português.
Renunciar ao galego é um luxo que não nos podemos permitir, mesmo que este luxo não serva de mais que para morrermos como galegos. Não deixemos que o discurso simplório e apocalíptico do Lusismo sequestre O DEVER DA NOSSA GERAÇÃO: manter a chama viva do galego e passá-la aos que vierem após nós.
Pois tu denúncia, hominho, denúncia. Denúncia, julga e condena. Eu não tenho tempo.
Isso mesmo venho de fazer neste fio, que amavelmente me tens aberto. Eu continuarei um anaquinho mais no meu blogue reaberto (http://ogalegodeseu.blogspot.com/), onde após ter deixado “dicas“ davondo para os que quiserem tornar o galego-espanhol em algo mais galego e lusófono, vou agora passar a sugerir como se pode veicular o galego através do padrão português europeu, aderindo a qualquer AO que houver. Quem quiser perceber, que perceba. E quem não, que lhe preste o portunhol de galicia e mais os ritos lusistas que o acompanham …
Muito obrigado e saúde
Continuo sem entender o quem de mau a AGAL. O que tu propões está perfeitamente recolhido em todos os trabalhos da AGAL assim como no dicionário Estraviz. É exatamente a mesma filosofia e as mesmas ideias. Pode haver três ou quatro diferenças menores. Mas tenho certeza de que a Comissão Linguística da AGAL escutará todas as tuas propostas com grande interesse sempre e quando sejam apresentadas com a devida educação e respeito.
O que eu proponho vai além da dicotomia AGAL- padrão português (for ele o que for). Explico: pode-se escrever em “agálico“ e ser-se muito portunhol, por via de escolhas lexicais, sintáticas, fraseológicas, etc, que prefiram materiais portugueses aos galegos. Por exemplo, pode-se escrever “eu nom som capaz de … “, ou “nom me dou conta“, ou “perdido nas brumas da memória“, etc, etc. Em contraste, pode-se escrever em padrão português “eu não sou quem de … “, ou “não me dou de conta / decato“, ou “perdido nas brêtemas da memória“, etc, etc. Neste caso, o padrão português teria conduzido o galego dum jeito mais fiel e estaria a falar da existência duma norma galega do português. Enquanto com a norma AGAL estaria-se a negar a existência da nossa norma, para além da ortografia diferencialista, mas todos sabemos bem, ou deveriamos saber, que uma língua, um dialeto ou uma norma, se define por muitas mais cousas, e não só a ortografia.
A mim tanto me tem uma norma que a outra, mas vendo que a “dinâmica“ vai cara a escolha do padrão português, eu vou apostar polo padrão português. Mas seja a escolha que for (afinal, entre as duas as diferênças são mínimas), conta enfiar o galego nela, porque é necessário que os galegos a reconheçam como galego, caso contrário estaria-se a criar um código para uso exclusivo da minoria elitista lusista.
É verdade que muitas das escolhas galegas que eu defendo (sei-que as de acima) são apenas localismos exaltados a galego polo isolacionismo, ou expressões próprias dos registos populares, mas elas formam parte do imaginário e usos cotiás, e devem ser empregados, numa medida ou noutra, para amossar (mais semântica galega) que não somos apenas imitadores do português, que temos o nosso GÊNIO E CARÁTER PRÓPRIOS. Se não existisse o castelão (semântica galega para uma palavra portuguesa, http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=castelão) tudo isto não seria necessário, mas o “projeto castelanista“ apenas deixa aberta a porta para a língua regional, o qual devemos aproveitar para ir mutando o galego-espanhol em galego-português, sorrateiramente, e sem perdermos contato com as “sensibilidades populares“.
Se a AGLP anda a preparar uma gramática galega do português, será que acredita nela. O problema é que nos venham com uma gramática desprovista ou quase de usos legitamente galegos por não serem de uso padrão na Lusofonia. Isso é que seria um erro de paralagem gravíssimo, porque estariam a dizer que não temos GÊNIO próprio, que apenas imitamos. E contra a tendência lusista, que acredita num mundo idílico-lusófono, onde exista uma apenas uma norma de português, que cumpre fazer fronte. E isso eu farei em anos futuros, se estiver dos deuses, a través de traduções de obras literárias doutras línguas para o GALEGO, ou português da Galiza, e de escritos nessa norma portuguesa de nós que eu imagino. Acho que, por exemplo, a Concha Rousia fez algo semelhante com o seu romance “As sete fontes“, e esse é o caminho, não a macaquice lusista.
Como disse acima, uma norma culta desligada da sensibilidade popular e dos usos vernaculares (que ainda existem em “Galicia“, não-sim?) não é sustentável, porque estariamos a falar de TRIGLOSSIA (vernacular castrapo espanholizado, castelão e mais português). É verdade que o galego “tevegalho“ é algo artificioso e desligado do popular, mas não na medida radical que suporia a proposta lusista.
É a obsessão pola “unidade da língua“ que guia a “macaquice lusista“. Mas a unidade da língua depende de muitas outras cousas, não só dos ditados acadêmico-elitistas. Existe a norma brasileira, isto é um facto de tão doada verificação que basta com ir a qualquer supermercado ou loja e ver a quantidade de produtos com instruções /descripções em dous portugueses. Cumpre entrar na Lusofonia reconhecendo este facto e aportando o patrimônio de nós. É a única maneira de ter qualquer legitimidade e credibilidade. Não é possível a entrada na Lusofonia pola “porta grande“, como se patenteou em Luanda, por muita razão que tivermos. Mas há frinchas e espaços desguardados por onde podemos enfiar-nos, e ir ganhando legitimidade e peso próprio, assim como quem não quer a cousa … à galega.
Prefiro mil vezes isto:
http://ogalaico.blogspot.com/2011/10/historia-da-gallaecia-em-teatro-amador.html
que os escritos acadêmicos e visitas diplomáticas dos gurús lusistas. Essa gente nova de Arzua estão a dizer que são galegos, e diferentes, mas sem deixarem de ser lusófonos. (O George Borrow no seu “The Bible in Spain“ narra como uma companha de teatro de Lisboa atuando em Pontevedra não era entendida polos galegos. Mas a estes galegos de hoje sim que se lhes entende em Portugal)
Quando houver, por exemplo, “stand-up comedians“ galegos em Lisboa, como noutrora havia aguadores ou afiadores, poderemos hablar de Lusofonia a sério. Mas para ir sem medo a Lisboa (ou a Rio) cumpre ter confiança no próprio falar. O Carlos Núnhez foi ao Brasil sem complexos, e triunfou, porque a sua linguagem (a da música, e a da música galega) conhece-a muito bem, e nela acha-se bem à vontade. Há que tirar vantagens das fraquezas próprias, e admitir que os galegos não vão dominar a norma portuguesa. Criando uma própria galega, está-se a lhes criar um “espaço de segurança“, onde poderem interagir em igualdade, e não como os alunos pobres e, ainda por riva, espanhois (ou portunhois). Por isso eu, quando em presença de lusófonos, digo que falo galego, porque dessa maneira estou-me a exonerar de qualquer erro, ou mesmo castelanismo, sem deixar de ser lusófono. E para a escrita o mesmo conto. Ele-não seria ridículo um brasileiro a falar ou escrever à maneira de Portugal?
Estou dacordo no 100% com os últimos dous comentários, mas se continuas a empregar insultos e grosseiras desqualificações, vou ter que apagar o fio.
Bom, pois podemos ficar por aqui. Eu já deixei muito clara a minha postura, e tu pareces concordar com ela. Eu vou considerar este fio no teu formidável blogue (que venho lendo, e continuarei a ler por algum tempo, com grande interesse), como uma “message in a bottle“, junto com uma meia dúzia de entradas que escreverei no meu próprio blogue ao respeito. Não paga a pena demorar mais sobre isto. Agora cada quem faça como julgar adequado, mas ninguém poderá dizer que não houve quem falara da necessidade de criar a norma galega (embora que quase “ready-made“) do português, consoante ao nosso patrimônio linguístico, nem do perigo de cair na “simplificação lusista“ que nega o galego.
E também é verdade que há muitas mais cousas que fam / desfam o país e a comunidade, para além da língua. Por tanto, deixo esta “obsessão“ minha, e que o sentidinho nos guie a todos.
Um adeus com música:
Força e saúde